1º de Maio: a luta dos trabalhadores, mas nunca foi pra todos

O 1º de Maio não é só sobre direitos conquistados. É também sobre quem foi deixado de fora dessa história. Enquanto uns lutavam por jornada, outros ainda lutavam pra ser reconhecidos como gente. A favela não esquece.

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FAVELADO PENSANTE

5/1/20264 min read

Pessoal, bora trocar uma ideia, mais uma na real, sobre o dia do trabalhador, Será? Que trabalhador? O 1º de Maio chega todo ano como um feriado no calendário, mas a gente não para pra ouvir o barulho que vem de trás dessa data. Não é silêncio, não. É grito antigo, é chão tremendo, é trabalhador tombando pra que hoje alguém tenha direito de reclamar do chefe.

Essa história começa lá atrás, em Haymarket Affair, em Chicago, nos Estados Unidos. Era maio de 1886, e o mundo industrial tava em ebulição. Operários trabalhando 12, 14, até 16 horas por dia, em fábricas abafadas, perigosas, sem direito nenhum. Criança trabalhando, mulher ganhando menos, homem morrendo cedo. A engrenagem girava, mas esmagando gente.

A reivindicação era simples, quase humilde: 8 horas de trabalho, 8 horas de descanso, 8 horas pra viver. Mas o sistema tratou isso como ameaça.

No dia 4 de maio, uma manifestação pacífica virou tragédia. Uma bomba explodiu, a polícia respondeu com tiros, e o que veio depois foi repressão pesada, perseguição e execução de lideranças operárias. Não importava quem jogou a bomba. O recado já tava dado: quando o trabalhador se organiza, o poder reage.

O Estado mostrou qual lado defendia. Não era o do povo.

E é desse sangue que nasce o 1º de Maio.

Mas segura essa visão, porque aqui começa o incômodo que ninguém gosta de contar.

Enquanto os trabalhadores brancos lutavam por direitos lá, aqui no Brasil, em 1886, o povo preto ainda tava acorrentado. Não é metáfora, não é exagero. Era corrente de ferro mesmo, chicote, senzala, trabalho forçado. A abolição só viria dois anos depois, em 1888, com a Lei Áurea, e mesmo assim, sem terra, sem indenização, sem escola, sem política pública.

Liberdade sem estrutura é descaso com nome bonito, abandono na prática.

E mais, mesmo depois de “livres”, os pretos foram empurrados pra fora do mercado formal. Política de branqueamento, incentivo à imigração europeia, exclusão sistemática. O Brasil decidiu quem era o trabalhador “ideal” e não era nós, os preto.

Ou seja: enquanto um lado do mundo brigava por reduzir jornada de trabalho, o outro lado ainda brigava pra ser reconhecido como gente.

Então quando falam que o 1º de Maio é “a luta dos trabalhadores”, a pergunta que fica é: quais trabalhadores?

Porque historicamente, favela, o sistema sempre teve um filtro. O trabalhador digno de direitos era o trabalhador branco, industrial, sindicalizado. Já o preto era visto como sobra do sistema escravocrata, mão de obra barata, descartável, invisível.

E isso não é só leitura ideológica. São dados históricos.

No Brasil, as primeiras leis trabalhistas surgem de forma mais estruturada só com a Era Vargas, especialmente com a criação da CLT em 1943. Mas quem tava dentro dessas leis? Majoritariamente trabalhadores urbanos, formais, organizados. A massa preta, recém saída da escravidão e jogada na informalidade, ficou de fora.

Trabalho doméstico, por exemplo, que sempre teve maioria de mulheres negras, só foi ter direitos mais completos décadas depois. Até 2013, com a PEC das Domésticas, essa galera ainda tava lutando por direitos básicos, só por questão de fatos e lembranças o então deputado Jair Messias Bolsonaro foi o único deputado tanto de direita quanto de esquerda a votar contra essa PEC das domésticas.

Ou seja, a exclusão não foi acidente. Foi projeto. E desse racismo todo nasce a favela.

Não como escolha, mas como consequência, sem acesso à terra, sem emprego formal, sem política pública, a população preta construiu seus próprios espaços, morro, periferia, quebrada, e aqui, criou sua própria economia, sua própria cultura, sua própria forma de sobreviver.

Porque o sistema nunca ofereceu inclusão. Só ofereceu perseguição.

A favela de hoje é herdeira direta desse corte histórico.

O trabalhador que acorda às 4 da manhã, pega busão lotado, trem, metrô ou então nem tem esse caminho, porque vive de corre, de bico, de aplicativo, de informalidade, esse trabalhador ainda não tá completamente dentro daquele modelo de direitos que nasceu lá atrás.

É como se a gente tivesse sido colocado num jogo onde a regra foi escrita sem a gente, e até hoje a gente tenta entender o manual enquanto joga. E mesmo quando entra, entra pela porta dos fundos.

Os dados mostram que a população negra no Brasil é maioria entre os trabalhadores informais, entre os desempregados, entre os que recebem menos, trabalha mais, ganha menos e morrem mais cedo.

Isso não é coincidência. É continuidade histórica.

E enquanto isso, o discurso dominante insiste em falar de meritocracia, como se todo mundo tivesse largado do mesmo ponto. Como se não tivesse um atraso de séculos sendo carregado nas costas.

Como se não tivesse gente ainda tentando sair da senzala simbólica que nunca deixou de existir.

E tem mais.

Quando o Estado olha pra favela, ele não vê trabalhador, Vê suspeito, criminoso, inimigo.

A mesma mão que constrói, limpa, dirige, entrega é a mão que pode ser algemada, enquadrada, silenciada. A lógica é cruel, você é útil enquanto produz, descartável quando questiona, quando luta.

E aí a luta continua.

Mas ela muda de forma.

Não é só por jornada de trabalho, é por dignidade, é por reconhecimento. é por direito de existir sem ser alvo, é luta por educação, por saúde, por segurança, por respeito.

É luta pra não morrer.

O 1º de Maio, pra nós, não é só memória de conquista, é memória de exclusão também.

É lembrar que quando os direitos começaram a ser escritos, a nossa história foi deixada de fora do rascunho.

Mas também é lembrar que, mesmo sem convite, a gente invadiu o debate.

Que a favela produziu intelectuais, artistas, trabalhadores, lideranças, que a gente construiu país mesmo quando o país virou as costas.

E que, aos poucos, a gente vem reescrevendo essa história.

Na marra. No grito. Na persistência.

Porque a verdade, Favela, é que nunca foi só sobre trabalho.

Sempre foi sobre quem é considerado digno de ter direitos.

Então hoje, quando alguém te falar “feliz dia do trabalhador”, você pode até aceitar mas com consciência.

Com memória.

Com posicionamento.

Porque pra nós, ser trabalhador nunca foi só bater ponto.

Sempre foi sobreviver.

E sobreviver, nesse sistema, já é um ato revolucionário.

E talvez seja isso que mais assusta eles: a favela não só sobrevive.

A favela pensa.

A favela entende.

E quando começa a entender, começa a mudar o jogo.