25 de janeiro. São Paulo faz aniversário. Mas antes do bolo, vem a verdade.

Neste texto, quero provocar a gente a pensar sobre qual São Paulo estamos comemorando e qual estamos fingindo não lembrar. É um convite à reflexão sobre a história construída com violência, racismo e apagamentos, mas também sobre a resistência que nasce das quebradas, da cultura e da palavra. Sem romantizar o passado, sem aceitar o silêncio, sem transformar dor em paisagem. Pensar São Paulo é assumir responsabilidade, memória e a urgência da reparação histórica.

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FAVELADO PENSANTE

1/25/20264 min read

São Paulo nasceu em 1554, no alto do Pátio do Colégio, como um projeto colonial. Não foi um nascimento inocente. Foi estratégico. Os jesuítas vieram catequizar, mas a catequização caminhava lado a lado com o apagamento cultural indígena e a dominação territorial. Desde o primeiro tijolo, essa cidade foi pensada para servir a um poder que não era daqui.

Durante os séculos seguintes, São Paulo se construiu como centro de exploração. No século XVII, os bandeirantes partiram daqui para o interior do país. O discurso oficial fala em “desbravamento”, mas o que houve foi caça a indígenas, escravização em massa, estupros, destruição de aldeias e genocídio. São Paulo foi base logística desse massacre.

E mesmo assim, até hoje, a cidade insiste em homenagear esses homens.

Borba Gato, que viveu entre 1682 e 1718, não foi herói. Foi parte ativa da engrenagem colonial escravista. Liderou expedições violentas, aprisionou indígenas e ajudou a sustentar um sistema baseado na morte. Ainda assim, em 1963, São Paulo ergueu uma estátua de mais de 13 metros para ele. Nenhuma placa explicando seus crimes. Nenhum pedido de desculpas. Só exaltação.

Enquanto isso, lugares de dor viraram paisagem neutra.

O Vale do Anhangabaú, hoje palco de shows e eventos, foi no século XVIII e XIX um dos maiores pontos de comércio de pessoas negras escravizadas. Homens, mulheres e crianças eram vendidos ali, separados de suas famílias, avaliados como gado. Esse passado raramente é mencionado. Não há memorial à altura do crime. O silêncio virou política pública.

São Paulo cresceu com o ciclo do café, principalmente no século XIX, tornando-se uma das cidades mais ricas do país. Essa riqueza tem endereço e cor. Foi construída com trabalho escravizado negro até 1888. Quando a escravidão acabou oficialmente (no papel), São Paulo virou as costas. Não houve reforma agrária. Não houve indenização. Não houve inclusão. O povo negro foi empurrado para os morros, várzeas e periferias que hoje o Estado finge não entender como surgiram.

A cidade que se orgulha de ser “locomotiva do Brasil” acelerou passando por cima.

No início do século XX, São Paulo se industrializou. Recebeu imigrantes europeus, criou fábricas, virou símbolo de progresso. Mas o trabalhador negro, recém-liberto, ficou à margem. O racismo estruturou o mercado de trabalho, o acesso à moradia e à educação. A desigualdade urbana não foi acidente. Foi projeto.

Em 1917, São Paulo parou com a Greve Geral, marco da luta operária no Brasil. Trabalhadores enfrentaram a repressão policial, a fome e o descaso do Estado. A cidade mostrou que também é feita de resistência, não só de exploração.

Em 1932, veio a Revolução Constitucionalista, celebrada como orgulho paulista. Mas é preciso dizer: não foi uma luta popular ampla. Foi, em grande parte, a defesa dos interesses de uma elite que queria manter poder político e econômico.

Pulando no tempo, chegamos a 1992.
O
Massacre do Carandiru.
111 homens mortos pelo Estado dentro de uma prisão. São Paulo assistiu. O Brasil inteiro viu. E, décadas depois, ninguém foi responsabilizado de verdade. O presídio caiu, virou parque, e a memória foi diluída. Mais uma vez, concreto por cima do sangue.

Mesmo assim, São Paulo nunca foi só opressão, foi muita opressão, mas não só.

Foi aqui que o povo tomou as ruas nas Diretas Já, em 1984, exigindo democracia.
É daqui que sai uma produção cultural que influencia o mundo.
O samba, o rap, o funk, o teatro de rua, o cinema periférico, a literatura marginal.
São Paulo é Racionais MC’s, é Cooperifa, é saraus nas quebradas, é arte como ferramenta de sobrevivência.

As Batalhas de Rima são trincheiras vivas. Há anos eu falo isso: esse movimento é uma das últimas bases reais de enfrentamento ao fascismo, à ditadura disfarçada de ordem e ao racismo estrutural. Enquanto o Estado nos violenta com bala, prisão, silêncio e exclusão, as Batalhas de Rima respondem com palavras, consciência e organização popular. Ali se forma pensamento crítico, identidade, denúncia e futuro. Cada verso é um ato político. Cada roda é um território libertado. Não podemos deixar eles criminalizarem esse movimento, é atacar diretamente uma das poucas frentes que ainda produzem resistência genuína nas quebradas.

A favela não é um erro urbanístico.
É consequência histórica.

Se São Paulo quer ser uma cidade exemplo, precisa parar de mentir pra si mesma.

Precisa assumir que ergueu estátuas para algozes e silenciou vítimas.
Precisa transformar antigos mercados de escravizados em
espaços de memória, não em cenários neutros.
Precisa investir pesado em
educação antirracista, moradia digna, cultura periférica e políticas públicas que enfrentem a desigualdade racial de frente.
Precisa falar em
reparação histórica, sem medo da palavra.

Não é sobre apagar o passado.
É sobre
contar a história inteira.

Bandeirante não é mito.
É um capítulo violento.

Mercado de escravos não é detalhe.
É ferida aberta.

São Paulo não precisa de mais marketing.
Precisa de coragem.

Feliz aniversário, São Paulo.
Que esse novo ano venha com menos negação e mais responsabilidade histórica.
Porque uma cidade que se recusa a lembrar, está condenada a repetir.