9 de Julho. A Revolução Constitucionalista. Mas constitucionalista para quem?

A Revolução Constitucionalista de 1932 não é essa versão ensinada nos livros. Neste texto, vamos discutir o papel das elites paulistas, da propaganda, da participação da população negra, contradições de uma guerra que mudou o Brasil, mas não mudou a vida de quem mais lutou.

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FAVELADO PENSANTE

7/10/20264 min read

9 de Julho. A Revolução Constitucionalista. Mas constitucionalista para quem?

Todo 9 de julho São Paulo veste a farda da memória e repete que fez uma revolução pela democracia e pela Constituição. Mas quase nunca conta a história inteira.

Bora conversar sem romantizar?

Em 1888 a escravidão acabava oficialmente no Brasil depois de mais de 350 anos. Milhões de pessoas negras passaram séculos sendo exploradas, torturadas e assassinadas para enriquecer uma pequena parcela da sociedade. Onde estava essa mesma disposição para pegar em armas contra essa barbaridade?

Poucas décadas depois, em 1932, bastou o governo de Getúlio Vargas retirar parte do poder político que as velhas oligarquias paulistas possuíam para que São Paulo organizasse uma guerra.

Isso diz muito.

Toda guerra precisa de um motivo. E, principalmente, de um símbolo.

No dia 23 de maio de 1932, durante um confronto nas ruas de São Paulo, cinco jovens acabaram mortos ou morreram em consequência dos ferimentos. Mas a propaganda escolheu quatro nomes para representar todo o movimento: Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo. Nascia a sigla MMDC.

A história foi transformada em um poderoso instrumento de mobilização. Cartazes, jornais, discursos e panfletos repetiam aqueles quatro nomes como um chamado às armas. O quinto jovem, Orlando Alvarenga, que também morreu em consequência dos confrontos, acabou ficando praticamente esquecido pela memória popular. Mais tarde, seu nome chegou a ser incorporado por alguns historiadores na sigla MMDCA, mas o MMDC já havia se tornado um dos maiores símbolos da Revolução Constitucionalista.

E esse talvez seja o primeiro grande aprendizado sobre 1932.

Antes mesmo do primeiro tiro da guerra, a batalha pela opinião pública já estava sendo vencida. São Paulo construiu uma narrativa forte, emocionante e patriótica, capaz de convencer centenas de milhares de pessoas de que era hora de lutar.

A partir dali, a propaganda faria um trabalho tão eficiente que, mais de noventa anos depois, muita gente conhece a sigla MMDC, mas poucos sabem quem eram aqueles jovens, por que morreram ou quais interesses estavam por trás da guerra que viria em seguida.

A verdade é que a Revolução Constitucionalista nasceu da insatisfação das elites paulistas com a perda da influência que exerciam durante a República Velha. O discurso oficial era a defesa de uma Constituição, mas por trás dele também existia a disputa pelo comando político e econômico do país

E quando a elite se sente ameaçada, ela sabe mobilizar.

A propaganda paulista foi gigantesca. Cartazes coloridos espalhados pelas cidades, jornais, campanhas públicas, artistas, empresários, rádios, mulheres brancas convocando voluntários, arrecadação de ouro para financiar o conflito. Era uma máquina de comunicação muito eficiente para a época.

Mais de 200 mil pessoas chegaram a se alistar ao longo da campanha. Muitos jovens mentiram a idade para lutar. Crianças sonhavam em vestir uma farda. Homens abandonavam o trabalho para seguir ao fronte acreditando que defendiam São Paulo.

Enquanto isso, milhares de famílias do interior assistiam pela primeira vez a um avião cruzando o céu. Para muitos camponeses, aquela máquina voadora parecia saída de outro mundo. Há relatos de rebanhos inteiros correndo assustados com aquele objeto desconhecido no céu.

A guerra chegava onde o progresso ainda era uma novidade.

E, como quase toda guerra, quem mais morria não era quem queria a guerra, ou quem ganharia algo com a guerra ou quem tomava as decisões.

Pouco tempo depois do início do conflito, a Frente Negra Brasileira também participou do esforço paulista. Homens negros foram para as trincheiras. Mulheres negras seguiram para enfermarias, cozinhas, hospitais e serviços de apoio. Muitas não tinham qualquer preparo técnico. Tinham apenas coragem e vontade de ajudar.

Entre elas surgiu Maria Soldado.

Uma mulher negra que rompeu o lugar que a sociedade reservava para ela e participou diretamente dos combates. Seu rosto acabou se tornando um dos símbolos femininos da Revolução, embora durante décadas sua história tenha recebido muito menos destaque do que a de tantos homens brancos.

Enquanto parte da elite comandava a guerra, negros, pobres, trabalhadores e camponeses também derramavam sangue por São Paulo.

No fim, o resultado chama atenção.

São Paulo perdeu militarmente.

Mas conquistou boa parte do objetivo político. Em 1933 foi convocada a Assembleia Constituinte e, em 1934, o Brasil ganhou uma nova Constituição.

As mulheres também consolidaram uma conquista histórica. O voto feminino, criado pelo Código Eleitoral de 1932, foi incorporado pela nova Constituição, fortalecendo um direito que vinha sendo reivindicado havia décadas.

Já os trabalhadores negros que lutaram?

Voltaram para uma sociedade que continuava profundamente desigual, marcada pelo racismo, pela exclusão e pela falta de oportunidades. A coragem deles entrou na história. Os privilégios, não.

Talvez a maior lição de 1932 seja outra.

Quando os interesses das camadas mais poderosas são ameaçados, recursos aparecem, campanhas ganham força, a propaganda convence multidões e a mobilização acontece numa velocidade impressionante.

A história mostra que a elite paulista teve enorme capacidade de organizar, financiar e influenciar os rumos do país. Essa força moldou o Brasil em diversos momentos. Algumas vezes produziu avanços institucionais importantes. Em outras, serviu principalmente para preservar interesses de quem já concentrava poder.

Conhecer essa história inteira vale mais do que repetir um mito. Porque nenhuma memória fica completa quando só a versão dos vencedores é contada.


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