A vida dos outros não pode ser a régua da nossa saúde mental
Neste Dia da Psicóloga, uma reflexão sobre saúde mental, ansiedade e os perigos de comparar nossa vida real com a falsa perfeição das redes sociais.
DIA A DIAHISTORIAPRETO
FAVELADO PENSANTE
8/27/202610 min read


A vida dos outros não pode ser a régua da nossa saúde mental
Neste Dia da Psicóloga e do Psicólogo, eu não quero falar apenas sobre profissão. Quero falar sobre nós. Sobre a nossa cabeça cansada, os nossos medos escondidos, as ansiedades que ninguém vê, a pressa que tomou conta da vida e essa sensação permanente de que estamos atrasados.
Atrasados para comprar uma casa. Atrasados para ganhar dinheiro. Atrasados para encontrar um amor. Atrasados para casar, ter filhos, viajar, trocar de carro, abrir uma empresa, ficar ricos, construir um patrimônio e descobrir aquilo que chamam de propósito. Parece que existe um relógio invisível correndo contra nós. E, quanto mais olhamos para os lados, mais rápido esse relógio parece andar.
A nossa mente nunca recebeu tanta informação e, ao mesmo tempo, nunca teve tão pouco tempo para processar o que está acontecendo. Acordamos e, antes mesmo de perguntar ao nosso corpo se ele descansou, pegamos o celular. Em poucos minutos, vemos guerras, mortes, gente desempregada, criança passando fome, alguém comprando uma mansão, outro viajando para Dubai, um influenciador prometendo riqueza, uma pessoa exibindo o corpo perfeito, outra dizendo que acordou às cinco da manhã, correu dez quilômetros, leu cinquenta páginas, trabalhou, investiu e ficou milionária antes do café.
Você nem escovou os dentes e já está se sentindo um fracassado.
Esse é um dos grandes perigos do nosso tempo: estamos comparando a totalidade da nossa vida com os melhores segundos editados da vida de outra pessoa. Comparamos nossas dívidas, nossos medos, nossas dores, nossos boletos e nossas inseguranças com uma fotografia cuidadosamente escolhida, tratada, iluminada e publicada por alguém que também pode estar cheio de dívidas, medos e inseguranças.
A ciência já começou a observar esse fenômeno. Pesquisas apontam que as comparações sociais “para cima” quando olhamos alguém que parece estar numa condição melhor e nos sentimos inferiores podem ajudar a explicar a relação entre o uso das redes sociais, a redução da autoestima e o aumento de sintomas depressivos. Isso não significa que qualquer pessoa que use Instagram ficará doente. Significa que o problema não é apenas o tempo de tela, mas também o tipo de conteúdo consumido e a maneira como ele entra na nossa cabeça. Um estudo publicado em 2025 encontrou associação entre a exposição constante a essas comparações e menor autoestima, além de mais sintomas depressivos.
A inveja também precisa entrar nessa conversa, mas sem aquela análise preguiçosa que transforma todo mundo em pessoa ruim. Nem sempre a inveja nasce da maldade ou do desejo de destruir alguém. Muitas vezes, ela nasce de uma dor que não conseguimos nomear. Você vê a conquista do outro e aquilo desperta a sensação de que nunca chegará a lugar nenhum. O problema não é reconhecer que gostaria de ter algo semelhante. O problema começa quando a felicidade alheia se transforma numa sentença contra você.
Você vê alguém andando de jet ski e pensa que fracassou. Vê uma viagem e sente vergonha de estar dentro de casa. Vê um carro novo e começa a odiar o seu carro velho. Vê um casal sorrindo e conclui que nunca será amado. Vê uma pessoa com uma casa enorme e sente que não construiu nada.
Só que você não conhece os bastidores daquela publicação.
O jet ski pode ser alugado. A viagem para a praia pode estar parcelada em 12x. O carro pode pertencer ao banco. A roupa pode ter sido devolvida depois da fotografia. O casal que aparece se beijando pode ter passado a madrugada brigando. O sujeito que vende prosperidade pode estar com o nome sujo e devendo para todo mundo. Aquilo que parece patrimônio pode ser empréstimo. Aquilo que parece felicidade pode ser publicidade. Aquilo que parece liberdade pode ser uma prisão cheia de filtros.
Não estou dizendo que toda conquista publicada é falsa. Existem pessoas trabalhando, prosperando, viajando e vivendo experiências verdadeiras. Que bom para elas. O ponto é outro: nós não podemos entregar nossa autoestima a uma imagem cuja história desconhecemos.
A vida dos outros não pode ser a régua da nossa saúde mental.
Vamos pensar em dois homens.
O primeiro tem 23 anos, casa e carro quitados. Nasceu numa família de advogados. O avô já era advogado, o pai seguiu a mesma profissão e, mais tarde, abriu uma agência de veículos que se transformou numa rede de lojas. Esse jovem começou uma faculdade, mas não terminou. Vive com o dinheiro do pai, passa algumas noites usando drogas e já bateu o carro da família várias vezes.
Na sexta-feira, ele aparece numa balada na Barra Funda. No sábado, publica que “partiu Guarujá”. No domingo, coloca uma fotografia num restaurante japonês com uma mulher bonita, depois de passar o dia andando de jet ski na represa.
Agora pense num homem de 40 anos que ainda não tem uma casa própria em seu nome. Os pais eram trabalhadores rurais, boias-frias, gente que viveu na roça, estudou somente até os primeiros anos do ensino fundamental e chegou à velhice sem patrimônio, carregando doenças e dores acumuladas durante uma vida inteira de trabalho pesado. Esse filho começou a trabalhar aos 12 anos. Terminou a escola enfrentando dificuldades.
Com o que ganhou, comprou algumas coisas, mas precisou usar boa parte do dinheiro para pagar uma cirurgia da mãe. Depois pagou uma segunda cirurgia. Quando seus pais envelheceram e já não podiam continuar morando na propriedade dos antigos patrões, ele comprou uma casa para eles.
Ele também comprou um carro, não para aparecer na internet, mas para os pais, que precisavam ir ao médico, ao mercado e aos compromissos da vida. Todo domingo acompanha a mãe à feira. Antes de dormir, pede a bênção. Ao acordar, pede novamente. Comprou um telefone para os pais, eles não sabem mexer no Instagram, não conseguem chamar um carro por aplicativo e ainda estão tentando entender um mundo que mudou rápido demais.
Esse homem também mora com o filho de 12 anos, que cria desde os 03, quando aconteceu a separação. Precisou trabalhar, cuidar da casa, criar uma criança, acompanhar os pais envelhecendo, pagar despesas, enfrentar problemas e continuar tentando construir alguma coisa.
Ele ainda não tem uma casa própria para si.
A sociedade olha superficialmente para esses dois homens e chama o primeiro de vencedor. Afinal, ele tem casa, carro, viagem e fotografias bonitas. Já o segundo corre o risco de ser chamado de atrasado porque chegou aos 40 anos sem exibir o patrimônio que esperavam dele.
Mas quem venceu de verdade?
Quem construiu alguma coisa?
Quem transformou dinheiro em cuidado, presença, dignidade e proteção?
Uma casa no próprio nome é importante. Dinheiro é importante. Ter conforto, viajar, comprar um carro e proporcionar uma vida melhor para a família são desejos legítimos. Pobre também merece conforto. Favelado também merece viajar. Trabalhador também merece comer bem, morar bem e ter tranquilidade financeira. Não precisamos romantizar a pobreza nem fingir que o dinheiro não faz falta. Faz muita falta.
O que não podemos aceitar é que o dinheiro dos outros determine o nosso valor. Principalmente quando os pontos de partida são completamente diferentes.
Um começou a corrida vários quilômetros à frente, com casa, escola particular, contatos, segurança financeira, herança, tempo para estudar e uma família pronta para socorrê-lo quando alguma coisa desse errado. O outro começou descalço, carregando os pais, os filhos, as dívidas e as consequências de uma desigualdade que já existia antes do seu nascimento.
Não é possível comparar os dois apenas olhando o que cada um possui aos 23, 30 ou 40 anos.
A comparação que ignora origem, raça, território, família, oportunidades e responsabilidades não é uma comparação: é uma violência.
Existe um discurso perverso dizendo que todos nós temos as mesmas 24 horas. Temos a mesma quantidade de horas no relógio, mas não temos o mesmo tempo disponível. Uma pessoa acorda e encontra o café pronto. Outra acorda para preparar o café dos outros. Uma pega o próprio carro. Outra enfrenta dois ônibus e um trem lotado. Uma consegue estudar sem preocupação. Outra estuda pensando como vai fazer a compra do mês. Uma recebe dinheiro da família. Outra sustenta a família inteira, além dos agregados.
As 24 horas de quem tem empregada, carro, patrimônio e rede de apoio não são vividas da mesma forma que as 24 horas de uma mãe solo, de um trabalhador periférico, de uma pessoa desempregada ou de alguém que cuida de parentes doentes.
Quando ignoramos essas diferenças, transformamos desigualdade em culpa individual. A pessoa não pensa que enfrentou obstáculos maiores. Ela pensa que é incompetente. Não percebe o tamanho do caminho que já atravessou. Enxerga somente o lugar onde não chegou.
É assim que muita gente brilhante começa a se considerar um fracasso.
Por isso, se você veio de uma comunidade, e ainda chegou aos 30 ou 40 anos tentando viver com dignidade, você é um VENCEDOR.
Você sobreviveu a uma estrutura montada para matar você.
Se criou filhos no meio disso tudo, sua trajetória é ainda maior. Se cuida dos seus pais quando eles merecem esse cuidado , você carrega uma grandeza que não cabe numa fotografia. Se ajuda um vizinho, orienta um jovem, sustenta a família, leva comida para casa, respeita seus filhos e continua tentando não perder a ternura, você é herói.
Aliás, essa história de dizer que o favelado é forte o tempo inteiro também pode virar uma armadilha. Somos fortes porque fomos obrigados, não porque não sentimos medo. A periferia não precisa apenas de homenagens à sua resistência. Precisa de descanso, lazer, políticas públicas, trabalho digno, moradia, segurança, atendimento psicológico e o direito de demonstrar fragilidade sem ser tratada como fraca.
Não podemos continuar achando normal que uma pessoa aguente tudo sozinha.
A Organização Mundial da Saúde informa que mais de um bilhão de pessoas vivem atualmente com alguma condição relacionada à saúde mental. Os transtornos de ansiedade são os mais comuns e atingiam cerca de 359 milhões de pessoas em 2021. Mesmo assim, aproximadamente três em cada quatro pessoas com transtornos de ansiedade não recebem tratamento adequado.
Isso mostra que sofrimento mental não é frescura, preguiça, falta de trabalho nem “coisa de gente fraca”. Também não é exclusividade de rico. Pobre sofre de ansiedade. Trabalhador tem depressão. Homem chora. Mãe desaba. Adolescente sente medo. Gente de terreiro, de igreja, sem religião, de todas as origens e idades pode precisar de acompanhamento.
A psicologia ainda é vista com preconceito, principalmente entre homens e nas comunidades. Muita gente aprendeu que conversar sobre sentimentos é se expor demais. O homem negro e periférico, então, costuma ser ensinado desde cedo a não demonstrar dor. Ele precisa suportar racismo, pressão financeira, violência, responsabilidade familiar e medo sem deixar a voz tremer.
Quando pede ajuda, escuta que precisa ser forte.
Mas pedir ajuda também é uma forma de ser forte.
A psicóloga e o psicólogo não estão ali para decidir sua vida, dar bronca ou dizer que você é louco. O acompanhamento psicológico pode ajudar a identificar padrões, compreender emoções, organizar pensamentos, elaborar traumas, estabelecer limites e enxergar escolhas que a ansiedade, o medo ou a culpa estavam escondendo.
Psicologia deveria fazer parte da nossa vida como o pão do café da manhã ou a macarronada de domingo. Porque todo mundo tem uma história, conflitos, perdas, relações e sentimentos que precisam de cuidado.
Terapia não vai acabar com o desemprego, pagar o aluguel nem destruir o racismo. Não devemos usar a psicologia para transformar problemas sociais em defeitos individuais. Muitas dores têm endereço, cor, classe e origem política. A pobreza, a violência, a desigualdade e a falta de perspectiva também adoecem.
Mas, mesmo sem resolver sozinho aquilo que a sociedade produz, a psicologia pode nos ajudar a não transformar toda essa violência numa guerra contra nós mesmos.
Pode ajudar você a entender que o vizinho não decide o seu valor. Que o carro do outro não diminui a sua caminhada. Que uma viagem não apaga sua história. Que você não é obrigado a correr no ritmo imposto pela internet. Que descansar não é desistir. Que dizer “não” não é egoísmo. Que amar alguém não exige aceitar humilhação. Que ser pai ou mãe não significa deixar de existir. Que uma infância difícil não precisa comandar todos os seus relacionamentos adultos.
E pode ensinar uma coisa fundamental: nem todo pensamento que aparece na nossa cabeça representa a verdade.
Você pode pensar que fracassou sem ter fracassado. Pode sentir que ninguém se importa enquanto existem pessoas ao seu redor tentando se aproximar. Pode acreditar que está atrasado quando, na realidade, percorreu um caminho muito maior do que reconhece.
Precisamos diminuir a velocidade. Selecionar melhor o que consumimos. Silenciar perfis que nos fazem mal. Parar de acompanhar quem transforma nossa insegurança em lucro. Descansar sem culpa. Conversar com pessoas de confiança. Retomar vínculos reais. Procurar ajuda profissional quando a angústia, a ansiedade, a tristeza ou o medo começarem a dominar a rotina.
Pelo SUS, a porta de entrada pode ser a Unidade Básica de Saúde. Dependendo da necessidade, também existem os Centros de Atenção Psicossocial, os CAPS, que oferecem cuidado comunitário e acompanhamento especializado. Em situações de crise ou risco imediato, é importante buscar uma unidade de urgência, acionar o SAMU pelo 192 ou procurar apoio emocional no CVV pelo telefone 188.
Cuidar da mente não é luxo. É uma necessidade do século XXI e também deve ser tratado como um direito. Precisamos de mais psicólogas e psicólogos nas escolas, nas unidades de saúde, nos territórios periféricos, nos equipamentos públicos e nos espaços de trabalho. Não basta dizer para o pobre “fazer terapia” se o atendimento não está acessível. Saúde mental também exige investimento público.
Neste Dia da Psicóloga e do Psicólogo, fica o agradecimento a quem escolheu trabalhar ouvindo aquilo que muitas vezes nem conseguimos contar para a própria família. Mas fica também um chamado para todos nós: cuidem da cabeça com a mesma seriedade com que cuidariam de qualquer outra parte do corpo.
Não espere quebrar completamente para pedir ajuda.
E, quando abrir o Instagram e enxergar alguém aparentemente vivendo a vida que você gostaria de ter, respire. Você viu uma imagem, não uma trajetória inteira. Não conhece as dívidas, as dores, as ajudas recebidas, os privilégios, os medos nem aquilo que acontece quando a câmera é desligada.
Olhe para a sua própria história com justiça.
Talvez você ainda não tenha a casa que sonhou. Talvez o carro ainda não tenha chegado. Talvez a viagem precise esperar. Mas pode existir uma mãe viva porque você pagou uma cirurgia. Um pai morando com dignidade porque você construiu um teto. Um filho crescendo com amor porque você decidiu permanecer. Uma família que continua de pé porque, muitas vezes, você segurou tudo.
Isso é vencer!
Talvez seja uma vitória muito maior do que aquela que cabe numa fotografia em cima de um jet ski.
Identidade
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