América. Esse nome que os caras sequestraram.
O Super Bowl é o maior símbolo do poder imperialismo dos EUA. Quando Bad Bunny ocupa esse espaço e afirma a identidade latina, ele desmonta a ideia de que “americano” é só quem nasce nos Estados Unidos. América é continente, é plural, é indígena, é negra, é migrante. Essa conversa é sobre identidade, poder e quem tenta controlar a narrativa.
FAVELADO PENSANTE
2/11/20263 min read


Domingo de Super Bowl. Aquela indústria bilionária, estádio brilhando mais que shopping em dezembro, bandeira tremulando como se fosse manto sagrado. E no meio daquele espetáculo que vende cerveja, patriotismo e sonho embalado em dólar… sobe um porto-riquenho.
Bad Bunny.
E não sobe pequeno, não. Sobe gigante. O show mais assistido da história do Super Bowl. 135 milhões de pessoas olhando para o mesmo palco. E ele não canta pedindo licença. Ele canta ocupando espaço.
E aí acontece algo simbólico demais pra passar batido.
Ele cita os países da América. Todos nós. Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Peru, Equador, Brasil, Colômbia, Venezuela, Guiana, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, El Salvador, Guatemala, México, Cuba, República Dominicana, Canadá, Estados Unidos… e Porto Rico.
Ali, naquele palco que sempre vendeu a ideia de que “americano” é só quem nasce nos Estados Unidos, ele fez uma coisa simples e revolucionária: lembrou que América é continente, não condomínio fechado.
Porque vamos falar a real aqui, manos e minas.
Os Estados Unidos se chamam de “americanos” como se fossem donos da palavra. Como se a geografia tivesse escritura registrada em cartório de Washington. Mas eles são estadunidenses. América somos todos nós. Do gelo do Canadá até o extremo sul do Chile. Da Amazônia ao Bronx. Da favela ao Harlem.
E quando eles usam “americano” como identidade única, não é distração. É imposição. É narrativa. É poder.
Só que a América que eles defendem com fogos de artifício foi construída com pólvora e sangue.
Terra roubada dos povos indígenas.
Corpos negros sequestrados da África.
Trabalho forçado.
Estupro sistemático de mulheres indigenas e negras escravizadas.
Isso não é exagero. É estrutura histórica. A própria Sally Hemings, mulher negra escravizada, foi explorada sexualmente por Thomas Jefferson, um dos “pais fundadores” dos Estados Unidos. O símbolo da liberdade mantendo uma mulher escravizada sob violência. Essa é a contradição fundadora.
A América nasceu proclamando liberdade enquanto algemava gente.
E essa lógica nunca foi totalmente desmontada. Ela só trocou de roupa.
Hoje ela aparece com colete tático e sigla oficial.
ICE.
Agentes federais abrindo fogo, matando gente em operação, separando pais de filhos, invadindo comunidades como se estivessem em guerra. Minneapolis virou manchete com civis mortos em ações de imigração. Protestos nas ruas. Estado armado contra trabalhador.
Mas dizem que é “segurança”.
Já vimos esse tipo de patriotismo antes. Bandeira levantada como escudo moral enquanto o Estado pisa no pescoço de quem ele chama de ameaça. A história tem nome pra isso. E não é bonito.
Martin Luther King avisou:
“A injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todo lugar.”
Não é frase de Instagram. É diagnóstico.
Carolina Maria de Jesus, escrevendo do barraco, já mostrava que o sistema chama abandono de ordem. Que o poder chama violência de controle. O que ela descreveu na favela brasileira conversa direto com o que acontece nas periferias estadunidenses.
O nome muda. A lógica é parecida.
E aí você me pergunta: o que o Super Bowl tem a ver com isso?
Tudo.
Porque o Super Bowl é o altar máximo do “sonho americano”. É onde o império se exibe. E naquele altar, um latino canta em espanhol, levanta bandeiras do continente inteiro e lembra que a América não pertence a uma potência.
Foi quase um sequestro simbólico ao contrário.
Eles vendem o espetáculo.
Ele devolve identidade.
Eles vendem unidade sob uma bandeira.
Ele mostra diversidade sob várias.
E isso incomoda.
Ser americano não é ser dono da América.
Ser americano é reconhecer que esse chão é plural, contraditório, cheio de dor e também de resistência.
A América não é só Wall Street.
É também a favela.
Não é só a Casa Branca.
É também o barraco.
Não é só a NFL.
É também o futebol de várzea, a quebrada, o gueto.
Nós não somos subordinados.
Não somos quintal de ninguém.
Não somos extensão cultural.
Somos países independentes.
Somos povos com história própria.
Somos América também.
E talvez o gesto mais político daquele domingo não tenha sido um discurso explícito. Foi simplesmente existir ali, com identidade latina intacta, no centro do palco mais imperial que existe.
Porque às vezes resistir não é pedir espaço.
É ocupar.
E a América, mano, não cabe numa bandeira só.
Identidade
“Um território vivo de reflexão e expressão cultural autêntica, onde a voz da quebrada ecoa com orgulho e potência. Aqui, cada ideia é resistência, cada palavra é liberdade, cada história é prova de que a favela pensa e faz acontecer.”
Resistência
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