AUTISMO: BORA FALAR SOBRE ISSO?
Mais do que falar sobre autismo, este texto fala sobre humanidade, respeito, direitos e as batalhas invisíveis enfrentadas por famílias todos os dias.
BLOGRESPEITODIA A DIA
FAVELADO PENSANTE
6/19/20265 min read


AUTISMO: BORA FALAR SOBRE ISSO?
Antes de qualquer coisa, eu queria te pedir uma coisa simples: paciência.
Se você encontrar uma criança autista fazendo movimentos repetitivos, falando alto, se isolando, chorando sem que você entenda o motivo ou reagindo de forma diferente do que você considera normal, tente não julgar. Nem toda luta é visível. Nem toda batalha faz barulho. Muitas famílias estão enfrentando desafios que você nem imagina.
O autismo está cada vez mais presente na nossa sociedade. Talvez você tenha um filho autista, um sobrinho, um amigo, um vizinho ou conheça alguma família que vive essa realidade todos os dias. Mas afinal, o que é o autismo?
O Transtorno do Espectro Autista, conhecido como TEA, é uma condição do desenvolvimento neurológico. A pessoa autista percebe, sente e interpreta o mundo de uma forma diferente. Não é doença, não é falta de educação, não é birra e muito menos culpa dos pais.
Uma forma simples de entender é imaginar que cada cérebro possui seu próprio modo de funcionamento. Enquanto a maioria das pessoas processa determinadas situações de uma forma, a pessoa autista pode processar de outra. Não significa que ela seja menos capaz. Significa apenas que sua forma de perceber o mundo é diferente.
Os sinais podem variar bastante. Algumas crianças falam pouco ou não falam. Outras apresentam dificuldade para interagir socialmente. Algumas possuem sensibilidade intensa a sons, cheiros, luzes ou toques. Existem também aquelas que desenvolvem habilidades impressionantes em determinadas áreas.
Infelizmente, existe uma ferida que quase ninguém gosta de discutir.
Quando nasce uma criança autista, muitas famílias se unem para enfrentar os desafios. Mas outras famílias se quebram.
E na grande maioria quem acaba abandonando o barco é justamente quem ajudou a construir a família um pai que se torna um maldito genitor.
Enquanto a mãe luta por consultas, terapias, medicamentos, laudos e inclusão escolar, a maioria dos pais simplesmente fogem.
Fogem das consultas.
Fogem das reuniões escolares.
Fogem das noites sem dormir.
Fogem das crises.
Fogem das responsabilidades.
Quando aparecem é para cobrar e criticar.
É uma covardia que precisa ser dita.
Porque cuidar de uma criança já exige dedicação. Cuidar de uma criança autista exige ainda mais presença, paciência, amor e responsabilidade.
E abandonar essa missão para deixar tudo nas costas de uma mulher não é liberdade. Não é escolha. Não é direito.
É abandono e deveria ser crime!
Quase sempre falamos dos desafios da criança.
Mas também precisamos falar dos desafios das mães.
Enquanto algumas conseguem dividir responsabilidades com companheiros presentes e comprometidos, a maioria carrega praticamente tudo sozinhas.
São mães que trabalham.
São mães que cuidam.
São mães que estudam.
São mães que enfrentam filas.
São mães que cozinham.
São mães que limpam.
São mães que acompanham terapias.
São mães que enfrentam burocracias.
E fazem tudo isso na maioria das vezes sem qualquer rede de apoio.
Por trás de muitas crianças autistas existe uma mulher exausta que continua de pé porque simplesmente não tem a opção de desistir.
Então, encarecidamente preciso fazer um pedido.
Tenha mais paciência com os familiares. Principalmente com as mães.
Porque, enquanto muita gente vê apenas alguns minutos de uma crise, de uma consulta ou de uma dificuldade, existe uma mãe que passou a noite acordada. Existe uma mãe que passou horas em filas de hospitais. Existe uma mãe tentando conseguir atendimento. Existe uma mãe que muitas vezes abriu mão da carreira, dos estudos, do lazer e até dos próprios sonhos para cuidar do filho.
Infelizmente, em muitos casos, a responsabilidade acaba ficando concentrada toda sobre ela.
Elas muitas vezes deixam para depois o próprio cuidado, a própria saúde, os próprios sonhos e até os momentos simples de felicidade que qualquer ser humano merece viver.
Por isso, quando você encontrar a mãe de uma criança autista, oferece acolhimento antes de oferecer julgamento. Talvez ela esteja carregando uma batalha invisível.
Hoje, o número de diagnósticos cresce em todo o mundo. Isso não significa necessariamente que exista uma epidemia de autismo. Significa também que a ciência avançou, os diagnósticos melhoraram e mais pessoas estão tendo acesso à identificação correta de sua condição.
Mas o maior desafio nem sempre é o autismo.
Muitas vezes o maior desafio é o abandono do poder público.
As famílias enfrentam uma verdadeira maratona para conseguir consultas, terapias e atendimentos especializados. Mesmo quando a Justiça determina o fornecimento de determinados serviços, muitas vezes eles não chegam até quem precisa.
E existe um problema que merece destaque: a inclusão escolar.
No papel, a lei é bonita.
Na prática, milhares de famílias enfrentam dificuldades para conseguir profissionais de apoio, mediadores e estrutura adequada dentro das escolas.
Quem vive essa realidade sabe que não basta colocar uma criança autista dentro da sala de aula. Inclusão de verdade exige preparo, acompanhamento e suporte.
Imagine uma criança que precisa de óculos para enxergar. Agora imagine dizer que ela pode estudar normalmente sem eles. Parece absurdo, não parece?
É exatamente assim que muitas famílias se sentem quando o suporte garantido pela lei não é oferecido.
Por isso, quando você vê uma criança autista tendo dificuldades na escola, tente compreender. Quando vê uma mãe cansada, tente compreender. Quando encontrar um familiar estressado, tente compreender.
Na maioria das vezes eles não estão procurando privilégios.
Estão apenas tentando garantir direitos básicos.
Nos últimos anos, o uso medicinal do canabidiol também passou a fazer parte da vida de muitas famílias. Diversos estudos e relatos apontam melhora em sintomas como ansiedade, irritabilidade, sono e algumas questões comportamentais. Para muitas famílias, isso representou uma nova esperança e uma melhora significativa na qualidade de vida. Sempre com acompanhamento médico adequado e individualizado.
Mas talvez a principal reflexão deste texto seja outra.
O autismo não precisa apenas de médicos.
Não precisa apenas de terapias.
Não precisa apenas de leis.
O autismo precisa de uma sociedade mais humana.
Uma sociedade que tenha menos pressa para julgar e mais disposição para entender.
Uma sociedade que compreenda que nem toda criança consegue reagir da mesma forma.
Uma sociedade que perceba que por trás de cada diagnóstico existe uma família inteira tentando fazer o melhor que pode.
Então eu termino com mais um pedido.
Seja gentil.
Seja paciente.
Seja educado.
Tenha empatia.
Porque você pode esquecer uma palavra que disse hoje.
Mas uma mãe cansada, uma criança autista ou uma família que já carrega tantas batalhas talvez não esqueça.
E, às vezes, um pouco de compreensão vale mais do que qualquer tratamento.
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