Bolsonaro: de meme no Pânico e na Luciana Gimenez à Presidência
Uma reflexão sobre como Bolsonaro saiu de meme da televisão para chegar à Presidência, entre falas absurdas, contradições públicas e episódios que marcaram sua trajetória política. Também aborda a atuação da família, o comportamento de seus apoiadores e os efeitos do bolsonarismo.
BRASILPOLITICAHISTORIA
FAVELADO PENSANTE
10/22/202610 min read


Bolsonaro: de meme no Pânico e na Luciana Gimenez à Presidência
Jair Bolsonaro passou anos aparecendo na televisão como personagem de provocação. No Pânico e no programa de Luciana Gimenez, suas declarações agressivas viravam choque, piada e meme. Muita gente ria. Muita gente compartilhava. Em 2018, aquele personagem chegou à Presidência da República.
O caminho do meme ao poder não é uma curiosidade. Quando uma fala absurda se repete, corre o risco de deixar de causar espanto. Vira bordão, marca pessoal, sinal de que o político “fala mesmo”. O humor ajudou a tornar Bolsonaro familiar; a familiaridade, para muita gente, abriu espaço para tolerar o que deveria ser inaceitável.
A ciência política oferece conceitos para entender essa relação: personalismo, quando a política se concentra na figura do líder; populismo autoritário, quando o líder diz representar o “povo verdadeiro” contra inimigos que supostamente ameaçam a nação; e polarização afetiva, quando a defesa do político vira parte da identidade do grupo. Não é diagnóstico de cada eleitor. É uma maneira de nomear uma dinâmica política em que o líder se torna mais importante do que as propostas, as instituições e os fatos.
Em 2018, uma pesquisa Datafolha registrou que 30% dos eleitores de Bolsonaro citavam a vontade de mudança, 15% mencionavam promessas em geral e 13% diziam votar para impedir a volta do PT. Isso não permite afirmar que os apoiadores desconheciam as propostas. Permite perguntar por que a imagem do candidato e a rejeição ao adversário tiveram tanta força — e por que tantas declarações e decisões foram tratadas como detalhes diante da promessa de um salvador.
O que foi dito não era só provocação
Em 2011, no programa CQC, Preta Gil perguntou a Bolsonaro como ele reagiria se um filho se apaixonasse por uma mulher negra. Ele respondeu que isso não aconteceria porque os filhos eram “bem educados” e não viviam em um ambiente como o dela. Foi uma declaração racista, feita em rede nacional, e o episódio chegou à Justiça.
Em 1997, Bolsonaro disse que “ninguém gosta de homossexual” e que as pessoas os “suportam”. Em 2011, suas declarações sobre homossexualidade no CQC também motivaram uma condenação por danos morais coletivos, mantida pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro em 2017. Não se trata de uma frase tirada do nada nem de uma invenção de adversários: são registros públicos, consequências judiciais e palavras que atingem grupos inteiros.
O lema e o alerta histórico
“Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” foi o lema da campanha de Bolsonaro. A construção “Brasil acima de tudo” tem um eco evidente em “Deutschland über alles” — “Alemanha acima de tudo”. É uma semelhança ou é uma cópia direta do slogan alemão. Mas a comparação entre as frases é legítima, e a combinação entre nacionalismo, religião e culto à unidade é ainda maior .
O lema nazista mais conhecido era “Ein Volk, ein Reich, ein Führer”: “Um povo, um Reich, um líder”. A propaganda apresentava Hitler como a personificação da nação. Mais um por acaso, entre Brasil de Bolsonaro à Alemanha nazista. São regimes e crimes de escalas distintas, blz. Sendo muito responsável a comparação observando, abre sinais de alerta, culto ao líder, propaganda, desumanização de grupos e promessa de recuperar uma nação supostamente ameaçada (amecas como banheiro unissex, não existente, kit gay, nunca visto, virar venezuela, 20 anos do governo petista e nada ainda, entre outros) sem apagar as diferenças históricas.
O regime nazista assassinou seis milhões de judeus e milhões de outras vítimas. Perseguiu pessoas por sua origem, religião, deficiência, posição política e por não se encaixarem no ideal racial imposto pelo regime. Em Auschwitz, prisioneiros, incluindo gêmeos, foram submetidos a experimentos cruéis, muitos deles fatais. Essa história é um alerta; já está acontecendo algumas dessas coisas, mas ignorar a normalização do autoritarismo também tem um custo.
Família como discurso e como poder
A família Bolsonaro construiu sua imagem política falando em defesa da família e dos bons costumes. Bolsonaro teve três casamentos e cinco filhos. A questão não é julgar sua vida privada. A questão é cobrar a régua moral usada por quem transforma a própria família em propaganda e usa “família” como argumento para atacar a vida e os direitos de outras pessoas.
Bolsonaro se identificava publicamente como católico e já mencionou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida em casa. Ao mesmo tempo, aproximou-se de lideranças evangélicas e frequentou cultos. Em maio de 2016, foi batizado nas águas do Rio Jordão pelo pastor Everaldo, acompanhado de três filhos. O episódio foi amplamente associado à sua aproximação com o eleitorado evangélico, embora ele continuasse se identificando como católico. Michelle Bolsonaro é evangélica. O problema não é a religião de cada um; é usar a fé como ferramenta política e, depois, querer cessar a liberdade religiosa dos outros usando até tons de ameaça.
Essa disputa não fica só no discurso. Em 12 de outubro de 2022, durante a visita de Bolsonaro ao Santuário Nacional de Aparecida, apoiadores vaiaram o padre Camilo Júnior e hostilizaram profissionais da TV Aparecida. Em 2024, o padre Júlio Lancellotti relatou uma ameaça de morte feita por um homem que se identificava como apoiador de Bolsonaro. Em 27 de setembro de 2026, uma apoiadora interrompeu uma missa e acusou o padre de pedir votos para Lula; o sacerdote negou e disse que falava da Palavra de Deus. Neste ano, apoiadores de Flávio Bolsonaro também atacaram o bispo Dom Limacêdo Antônio da Silva após uma homilia em que ele alertou para o risco de uma ditadura. São episódios distintos, mas mostram a política invadindo igrejas e transformando divergência em hostilidade. Esses casos concretos precisam ser nomeados, tendo muitos outros acontecendo a todo instante.
E reconhecer ataques a católicos não pode apagar o racismo religioso enfrentado por umbandistas e candomblecistas. Terreiros continuam sendo alvo de intolerância. O direito à religião precisa valer para todos, toda fé merece proteção.
Pandemia: propaganda contra a ciência, mais de 700 mil mortes.
Na pandemia, Bolsonaro promoveu cloroquina e hidroxicloroquina contra a Covid-19. Estudos amplos só mostravam que nada desses remédios tinha contra a doença, e a Organização Mundial da Saúde interrompeu o braço de hidroxicloroquina de seu ensaio Solidarity por falta de benefício clínico. O presidente escolheu promover uma promessa sem respaldo suficiente enquanto o país enfrentava uma crise que matou centenas de milhares de pessoas, enquanto não respondia e-mails sobre as vacinas, essas sim testadas e aprovadas por todos os órgãos mundiais de saúde.
Bolsonaro também lançou dúvidas sobre vacinas e fez declarações públicas que alimentaram a desconfiança. A Polícia Federal o indiciou em 2024 por suspeita de falsificação de registros de vacinação. Mas esse inquérito foi arquivado pelo STF em março de 2025, após a PGR concluir que não havia elementos suficientes para responsabilizá-lo. O fato permanece, um presidente que questionou a vacinação acabou investigado por um esquema de registros falsos e o caso terminou arquivado por distorção nas provas contra ele.
A CPI da Pandemia também apontou responsabilidades e recomendou indiciamentos em seu relatório. Uma CPI não condena ninguém, mas seu relatório registra acusações e fatos que devem ser cobrados dos responsáveis. O país tem direito de perguntar por que o governo apostou em remédios sem eficácia comprovada, atacou a confiança nas vacinas e falhou em conduzir a crise com a seriedade exigida.
Rachadinha, chocolates e dinheiro vivo
O caso da loja de chocolates de Flávio Bolsonaro não surgiu de um meme. Foi investigado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro. A acusação era direta: parte do dinheiro que, segundo os promotores, teria sido recolhido dos salários de assessores do gabinete de Flávio a chamada “rachadinha” poderia ter sido disfarçada como faturamento da franquia de chocolates.
O MP-RJ apontou depósitos em dinheiro vivo que considerou desproporcionais ao movimento da loja e observou que, na Páscoa, quando as vendas de chocolate aumentavam, os depósitos em espécie não cresciam na mesma proporção. A Promotoria estimou que até R$ 1,6 milhão poderia ter sido lavado por meio da loja. Flávio negou irregularidades. A denúncia foi rejeitada depois que provas financeiras foram anuladas por decisões judiciais; ele não foi condenado nesse caso. Isso é o desfecho processual não apaga o conteúdo da acusação feita pelo Ministério Público nem as perguntas sobre aqueles depósitos.
A acusação de rachadinha também apontava Fabrício Queiroz, ex-assessor e amigo da família, como operador da arrecadação de parte dos salários de funcionários do gabinete de Flávio. A denúncia do MP descreveu um suposto desvio de milhões de reais. O STF considerou ilegais relatórios financeiros usados como base da investigação, e a denúncia foi rejeitada. Flávio nega ter cometido crime. Não cabe chamá-lo de condenado; cabe lembrar que houve uma acusação formal do Ministério Público e perguntar por que o caso nunca chegou a um julgamento de mérito capaz de esclarecer plenamente os fatos.
O dinheiro vivo aparece também no patrimônio imobiliário da família. Um levantamento do UOL identificou 107 transações de imóveis feitas desde os anos 1990 por Jair Bolsonaro, irmãos e filhos. Pelo menos 51 foram pagas total ou parcialmente em espécie, somando R$ 13,5 milhões em valores da época. Isso não prova, por si só, que cada compra tenha sido criminosa. Mas é um volume extraordinário de transações em dinheiro vivo para uma família que ocupou cargos públicos a vida toda. A pergunta é inevitável: de onde veio esse dinheiro? por que tantas operações foram feitas em dinheiro vivo? porque esse dinheiro não podia passar por bancos? porque não podia ter rastro?
Joias presidenciais e tentativa de golpe
A Polícia Federal indiciou Bolsonaro em 2024 por suspeitas relacionadas à entrada, à venda e à tentativa de recuperação de jóias recebidas de governos estrangeiros durante seu mandato. A PF estimou em mais de R$ 6,8 milhões o valor dos bens investigados e afirmou que presentes destinados ao acervo público teriam sido desviados e vendidos no exterior. Bolsonaro negou irregularidades. Em 2026, a PGR pediu o arquivamento do inquérito, mas o caso continuava no STF, que determinou novas análises sobre parte do material e permitiu que a Receita Federal examinasse possíveis infrações aduaneiras e fiscais. Não houve condenação nesse caso; houve indiciamento da PF, pedido de arquivamento da PGR e investigação ainda em andamento.
E há um caso que já não é acusação: em setembro de 2025, o Supremo Tribunal Federal condenou Jair Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado e outros crimes ligados à trama para permanecer no poder após a derrota eleitoral de 2022. O STF concluiu que ele liderou uma articulação contra o resultado das urnas e contra a democracia. A defesa contestou a condenação, mas a decisão do Supremo é um fato jurídico. A família que se apresentava como defensora da pátria precisa responder por essa tentativa de impedir que a escolha do povo fosse respeitada.
O meme que chegou à Presidência virou também o centro de acusações, investigações e uma condenação histórica. Há casos que terminaram arquivados, outros em que provas foram anuladas, investigações ainda abertas e uma condenação por tentativa de golpe. Cada situação tem seu próprio desfecho. Colocar tudo no mesmo saco seria desonesto; esconder tudo atrás da palavra “perseguição” também.
Não basta dizer “sou Bolsonaro”, “sou da família” ou “defendo Deus e a pátria”. Quem pede poder em nome da moral precisa aceitar perguntas sobre dinheiro, família, patrimônio, decisões de governo e respeito à democracia. O dever de provar crime é da Justiça. O dever de responder politicamente por fatos públicos é de quem construiu poder com eles.
O nível dos eleitores de Bolsonaro
Não dá para dizer que todo eleitor de Bolsonaro participou desses atos. Mas quem protagonizou os episódios de bolsonarista raiz deixou um retrato difícil de defender: depois da derrota nas urnas, acampou diante de quartéis pedindo intervenção militar, espalhou fake news sobre fraude e acreditou que o artigo 142 autorizaria um golpe depois de 72 horas de protestos. Vídeos de treinamento militar foram anunciados como tanques a caminho de Brasília; circularam mentiras de que o Exército tinha reconhecido Bolsonaro como presidente e, na virada do ano, manifestantes ajoelharam, choraram e comemoraram a notícia falsa de que Lula seria impedido de subir a rampa. Nas rodovias, cantaram o hino nacional para um pneu cena que virou meme como “oração para pneu” e um apoiador chegou a se agarrar ao para-brisa de um caminhão em movimento andou vários quilômetros pendurado no parabrisa do caminhão para tentar impedir que ele furasse o bloqueio. Em Porto Alegre, manifestantes fizeram um “SOS” com luzes de celular e gritaram “general, olha nós”; a cena explodiu como um pedido de socorro aos ETs, que chamavam extraterrestres. O episódio já era surreal o bastante, gente pedindo aos militares que anulasse, na prática, a escolha feita nas urnas. Quando a defesa de um líder vale mais do que propostas, fatos e democracia, o patriotismo vira espetáculo e o eleitor vira personagem do próprio meme.
O meme pode fazer rir. A repetição pode fazer parecer normal. Mas racismo, homofobia, desprezo pela ciência, intolerância religiosa, suspeitas sobre dinheiro público e ataque à democracia não são apenas frases de efeito. São fatos, acusações e decisões que precisam ser expostos e cobrados.
Bolsonaro está na política desde 1989 e passou 27 anos na Câmara dos Deputados. Levantamentos registraram apenas dois projetos aprovados em sua longa trajetória parlamentar. O personagem, porém, sempre falou mais alto que o trabalho: ficaram as declarações racistas e homofóbicas, o desprezo pela ciência durante a pandemia, as suspeitas investigadas e, agora, uma condenação do STF por tentativa de golpe. Parte da militância também deixou um rastro concreto: em janeiro de 2026, o Supremo informou que 1.399 pessoas já haviam sido responsabilizadas criminalmente pelos ataques de 8 de janeiro. Houve ainda apoiadores com ligações documentadas a ambientes neonazistas e supremacistas brancos; isso não define cada eleitor, mas é grave demais para ser varrido para debaixo do tapete.
E em 18 de outubro deste ano, um grupo num ato pró-Flávio levou à Paulista um míssil inflável com a frase “Trump nuke Brazil”, pedindo um ataque nuclear contra o próprio país. Bomba não tem detector de partido: atingiria petistas, bolsonaristas e quem estivesse no caminho. Chamar isso de patriotismo é virar a palavra de cabeça para baixo, querem ser patriotas enquanto pedem que outro país ataque o próprio país é uma contradição que dispensa comentário.
Flávio Bolsonaro recebeu 47,03% dos votos válidos no segundo turno. E diante de tantos absurdos, mentiras, cenas vexatórias e ataques à democracia, fica a pergunta: como tanta gente continua tratando esse movimento como se fosse apenas uma piada? O meme virou poder, a fanatização virou espetáculo e o preço foi e será pago pelo país todo.
Identidade
“Um território vivo de reflexão e expressão cultural autêntica, onde a voz da quebrada ecoa com orgulho e potência. Aqui, cada ideia é resistência, cada palavra é liberdade, cada história é prova de que a favela pensa e faz acontecer.”
Resistência
Cultura
contato@faveladopensante.com.br
11 99668-1910
© 2025. All rights reserved.