COPITALISMO

Cresci acreditando que a Copa do Mundo era a festa dos povos. Hoje vejo uma Copa onde o dinheiro vale mais que gente, o racismo troca de roupa, a xenofobia vira protocolo e o trabalhador é expulso da própria paixão. Este texto não é sobre futebol. É sobre como transformaram a maior festa popular do planeta em um negócio para poucos e uma descriminação para muitos.

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FAVELADO PENSANTE

6/14/20265 min read

COPITALISMO

Bora trocar uma ideia?

Porque eu confesso que está ficando cada vez mais difícil assistir essa Copa do Mundo sem sentir um gosto amargo na boca. Não pelo futebol. O futebol continua sendo uma das coisas mais bonitas que a humanidade já inventou. O problema é tudo aquilo que colocaram em volta dele. O problema é a indústria. O problema é o dinheiro. O problema é a hipocrisia. O problema é que a Copa do Mundo de 2026 parece ter abandonado tudo aquilo que dizia representar.

Durante décadas venderam para nós a ideia de que a Copa era um espaço de união entre os povos. Uma festa mundial. Um momento em que as diferenças desapareciam e o futebol falava mais alto. Era o pedreiro torcendo ao lado do médico. O camelô comemorando o mesmo gol que o empresário. Nós da quebrada, o pessoal do centro e os boy usando a mesma camisa. Pelo menos era isso que contavam.

Mas basta olhar para esta Copa para perceber que a conversa era bonita e a prática é outra.

A verdade é que o futebol virou um negócio tão grande que nós torcedores, se tornamos apenas um detalhe. O povo que construiu a cultura do futebol foi empurrado para fora do espetáculo. A arquibancada popular virou produto de luxo. O ingresso virou artigo de ostentação. O estádio virou ambiente de networking para milionários. O futebol, que nasceu no barro, foi sequestrado pelo tapete vermelho.

Enquanto milhões de trabalhadores passam o mês inteiro calculando se conseguem pagar aluguel, mercado e transporte, existem ingressos custando valores que ultrapassam 50 salários mínimos. Não estamos falando de conforto, estamos falando de exclusão. Estamos falando de um sistema que olha para o trabalhador e diz com todas as letras: "essa festa não é para você!".

E talvez a maior crueldade seja justamente essa. Porque o futebol foi criado pelo povo. Foi o povo que transformou um esporte em paixão. Foi o povo que lotou estádios por décadas. Nós que carregamos bandeiras, pintamos ruas, criamos músicas, criamos rivalidades, criamos cultura. Agora o povo assiste pela televisão enquanto camarotes recebem empresários, investidores, influencers, celebridades e políticos que muitas vezes nunca pisaram numa arquibancada popular na vida.

Aliás, alguns desses políticos merecem um capítulo à parte. Tem gente que passa o ano inteiro atacando o trabalhador. Tem gente que chama pobre de preguiçoso. Tem gente que diz que direitos trabalhistas são exagero. Tem gente que acha normal uma pessoa trabalhar na escala 6x1. Tem gente que chama quem luta por dignidade de vagabundo. Mas quando chega a Copa, misteriosamente aparecem em camarotes, hotéis de luxo e áreas VIP. Sempre existe dinheiro para o privilégio. Nunca existe dinheiro para o povo.

Mas a exclusão econômica é apenas uma parte da história.

Existe algo ainda mais nojento acontecendo.

A xenofobia.

O racismo.

A humilhação institucionalizada.

O tratamento dado a pessoas de determinados países deixa claro que nem todos são vistos como iguais. A mensagem é simples: existem nacionalidades consideradas confiáveis e existem nacionalidades consideradas suspeitas. Existem pessoas que desembarcam sorrindo e existem pessoas que desembarcam com a mão na cabeça.

E não adianta maquiar a realidade.

Quando os países ricos falam sobre segurança, normalmente os corpos revistados são os pretos. Quando falam sobre controle migratório, normalmente os suspeitos são os pretos. Quando falam sobre ameaça, normalmente apontam para os pretos.

O racismo moderno aprendeu a usar terno.

Aprendeu a usar crachá.

Aprendeu a usar linguagem diplomática.

Mas continua sendo racismo.

E o mais revoltante é que tudo isso acontece enquanto a FIFA posa de defensora da diversidade. Faz campanha bonita. Faz vídeo emocionante. Faz postagem colorida nas redes sociais. Mas quando chega a hora de enfrentar os interesses dos poderosos, o discurso desaparece mais rápido que fumaça.

A verdade é que a FIFA não é uma organização de futebol.

Ela é uma organização de negócios.

E negócios não têm amigos.

Negócios têm interesses.

Por isso algumas tragédias geram comoção mundial e outras recebem silêncio constrangedor.

Por isso algumas guerras são condenadas imediatamente e outras recebem explicações sofisticadas.

Por isso algumas invasões geram punições severas e outras recebem justificativas diplomáticas.

Por isso algumas vidas parecem valer mais do que outras.

Nos últimos anos o mundo assistiu dezenas de milhares de palestinos morrerem. Crianças. Mulheres. Idosos. Famílias inteiras. Hospitais destruídos. Escolas destruídas. Bairros inteiros transformados em escombros. Organizações internacionais denunciaram massacres, crimes de guerra e violações de direitos humanos. Ainda assim, boa parte da comunidade internacional seguiu tratando tudo como se fosse apenas mais uma notícia qualquer.

E é impossível não perceber a diferença de tratamento.

É impossível não perceber que existem aliados que podem fazer qualquer coisa sem sofrer consequências proporcionais.

É impossível não perceber que existe uma geopolítica da indignação.

Alguns países são julgados.

Outros são protegidos.

Alguns são demonizados.

Outros são blindados.

E enquanto isso a FIFA continua falando de união.

União de quem? Respeito para quem? Diversidade para quem?

Porque para o trabalhador pobre nem consegue sonhar em ir pra Copa.

Para muitos imigrantes a Copa está hostil.

Para muitas vítimas de guerra a Copa está passando pano quente em assassinos e fascistas.

Para muitos povos historicamente discriminados a Copa está lembrando exatamente quem continua mandando no mundo.

Por isso que este texto se chama COPITALISMO.

Porque não estamos assistindo apenas a uma Copa do Mundo.

Estamos assistindo uma aula prática de como o capitalismo global funciona.

Quem tem dinheiro entra.

Quem não tem fica olhando.

Quem tem poder dita as regras.

Quem não tem é obrigado a obedecer.

Quem é aliado recebe aplausos.

Quem não é, recebe punições.

Quem gera lucro ganha proteção.

Quem não gera vira estatística.

E talvez a parte mais triste de tudo seja perceber que muita gente já naturalizou essa lógica. Aceitou como se fosse normal. Aceitou que uma partida de futebol custe o equivalente ao salário de 5 anos de trabalho. Aceitou que a exclusão social seja chamada de experiência premium. Aceitou que a guerra seja transformada em nota de rodapé. Aceitou que o racismo seja tratado como incidente isolado. Aceitou que a xenofobia seja chamada de protocolo. Aceitou que a desigualdade seja vendida como mérito.

Mas não é normal.

Nunca foi.

E não deveria ser.

Porque uma Copa do Mundo deveria aproximar pessoas, não separar classes sociais. Deveria derrubar fronteiras, não reforçá-las. Deveria celebrar culturas, não humilhá-las. Deveria mostrar o melhor da humanidade, não servir como vitrine para suas contradições mais nojentas.

Quando eu olho para essa Copa, não vejo apenas futebol.

Vejo um retrato do mundo que os poderosos construíram.

Um mundo onde o dinheiro vale mais que a dignidade.

Onde a imagem vale mais que a verdade.

Onde o lucro vale mais que a vida.

Onde a propaganda vale mais que a justiça.

E talvez o mais assustador seja perceber que eles nem tentam mais esconder.

Porque quando a injustiça deixa de ser escondida e passa a ser exibida com orgulho, significa que ela já acredita ter vencido.

Por isso a maior crítica que podemos fazer não é contra o futebol.

O futebol ainda pertence ao povo.

A crítica é contra aqueles que transformaram a maior festa popular do planeta em um clube exclusivo para bilionários, governos poderosos e corporações que lucram enquanto vendem discursos vazios sobre união, paz e respeito.

Isso não é a Copa do Mundo.

Isso é o capitalismo vestindo uma camisa de futebol e fingindo que está jogando no mesmo time que nós.


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