Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa.
Uma reflexão direta e necessária sobre o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, escancarando como o ódio às religiões de matriz africana é, na prática, racismo disfarçado de fé. Um convite à leitura, ao respeito e ao questionamento das contradições de quem diz pregar amor, mas espalha intolerância. Axé.
BLOGPRETOBRASIL
FAVELADO PENSANTE
1/21/20263 min read


E no Brasil, isso precisa ser dito sem rodeio: intolerância religiosa tem cor, tem alvo e tem endereço. Ela é, antes de tudo, racismo.
O Brasil é um país que convive com dezenas, centenas de religiões. Tem budismo, hinduísmo, judaísmo, islamismo, espiritismo kardecista, wicca, xamanismo, seicho-no-ie, messiânica, mórmon, testemunha de jeová, bahá’í, hare krishna, igrejas orientais que quase ninguém sabe explicar como funcionam. E sabe o que acontece com a maioria delas?
Nada.
Ninguém apedreja templo, ninguém invade culto, ninguém chama de demônio, ninguém bate em criança por usar símbolo religioso.
Agora experimenta ser do candomblé, da umbanda, do omolokô, do batuque, do tambor de mina, do xangô, do quimbanda, do ifá.
Experimenta ser preto, usar uma guia no pescoço, raspar a cabeça por obrigação religiosa, tocar atabaque, cantar em iorubá, cultuar ancestral.
Aí o ódio aparece. A polícia aparece. O pastor aparece. O “cidadão de bem” aparece.
Não é coincidência.
As religiões de matrizes africanas são perseguidas porque colocam o povo preto como protagonista, porque não pedimos licença pra Europa, porque não pedimos benção pra branquitude, porque afirmamos que nossa ancestralidade é sagrada. E isso incomoda um país construído em cima da escravidão e da negação da humanidade negra.
É curioso observar como funciona a régua dessa intolerância.
Tem evangélico que abraça Israel como se fosse irmão de sangue, mesmo Israel não reconhecendo Jesus como messias, mesmo existirem registros de violência contra cristãos em território israelense. Mas tudo bem, né? São brancos, têm poder geopolítico, têm dinheiro, passam uma imagem “civilizada”.
Agora um preto com guia no pescoço vira automaticamente “do mal”.
Chamam de demônio algo que nem sequer existe nas religiões de matriz africana do jeito que eles imaginam. O conceito cristão de demônio é deles, não nosso. Exu não é diabo. Pomba Gira não é prostituta. Orixá não é entidade do mal. Isso é ignorância vestida de fé.
Exu é movimento, comunicação e caminho aberto.
Pomba Gira é força, autonomia, cuidado e verdade.
Orixá é natureza viva, ancestralidade e equilíbrio.
Sem medo. Sem fantasia. Sem demonização.
Só respeito. Axé.
E vamos falar a verdade que dói:
Intolerância religiosa no Brasil não é defesa de Deus. É defesa de privilégio.
Quantas guerras foram e são travadas “em nome de Deus”? Cruzadas, colonização, genocídio indígena, escravidão africana, conflitos no Oriente Médio. Sempre o mesmo discurso: Deus mandou, Deus quer, Deus está do nosso lado. Será mesmo que essas pessoas já leram a Bíblia que tanto usam como arma?
Onde está escrito para odiar homossexuais?
Onde está escrito para atacar outras religiões?
Onde está escrito para humilhar, excluir, violentar?
O que existe é interpretação humana. E hoje quem interpreta muitas vezes não é líder espiritual, é pastor-coach, vendedor de curso, empresário da fé. A pessoa não lê, não estuda, não questiona. Ela só repete. Vomita o que ouviu no púlpito, no WhatsApp, no YouTube, sem nunca conferir a fonte. Fé terceirizada.
Tem gente que fala com orgulho: “Velho Testamento não se leva tão a sério”.
Mas sabe o que está no Velho Testamento?
O dízimo.
E curiosamente, esse virou o mandamento número um.
Então escolhe-se o que convém, ignora-se o que incomoda. Conveniência travestida de devoção.
E aqui entra a contradição escancarada.
O mesmo que chama macumba de coisa do demônio pula sete ondinhas no réveillon.
Veste branco pra “trazer coisa boa”.
Faz simpatia, acende vela, sopra canela, faz promessa.
Mas se oferecer um doce de Cosme e Damião, entra em pânico.
É como se tivesse oferecendo veneno.
Macumbeiro é diferente.
Macumbeiro é dahora.
Se chamar pra igreja evangélica, ele vai.
Se chamar pra missa católica, ele entra, senta, respeita.
Se tiver festa muçulmana, ele aparece, come, bebe, conversa, aprende.
Sem preconceito. Sem medo. Sem ódio.
Porque quem é de matriz africana aprendeu a conviver.
Quem persegue é quem acha que é dono da verdade absoluta.
Então vamos parar de fingir que isso é só “diferença religiosa”.
Não é.
É racismo estrutural.
É criminalização da cultura preta.
É medo da nossa ancestralidade.
É ódio ao que não se controla.
Combater a intolerância religiosa é exigir estudo, leitura, responsabilidade e humanidade.
Até pra discordar, é preciso conhecer.
Até pra ter fé, é preciso caráter.
Respeitar a fé do outro não diminui a sua.
Mas atacar a fé do outro revela exatamente o que você carrega por dentro.
Hoje, no Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, o posicionamento é um só:
não em nome de Deus, não em nome da fé, não em nome da ignorância.
Axé.
Amém.
Saravá.
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