Falar de Carnaval?! Então encosta na mureta. Vamos trocar essa ideia olhando a rua.

Uma crônica direta e consciente sobre o carnaval pela ótica do povo preto: das raízes africanas e da força de Tia Ciata às primeiras escolas como a Mangueira, passando pela perseguição religiosa, pela elitização e pelo poder político da avenida. Um texto que mostra que carnaval não é só festa. É memória, resistência e recado dado em ritmo de bateria.

FAVELADO PENSANTE

2/16/20264 min read

Você acha mesmo que carnaval começa quando a Globo liga a câmera?
Carnaval começa muito antes, né quebrada. Começa no porão do navio. Começa quando nossos ancestrais, arrancados da África, decidiram que o corpo ainda era território livre. Corrente prendia pulso, mas não prendia ritmo.

Me diz: quem você acha que ensinou o Brasil a sambar?

O tal do Entrudo veio de Portugal lá no século 18. A elite jogava água, farinha, limão de cheiro. Brincadeira branca, colonial, meio desorganizada. Mas quem transformou isso em cultura popular foram os pretos, escravizados e libertos, principalmente no Rio de Janeiro do século 19.

Foram os ranchos organizados por negros baianos. Foram as tias baianas, mulheres de santo, cozinheiras, líderes culturais. E se a gente for falar de mãe do carnaval, o nome é um só: Tia Ciata.

A casa dela, na Praça Onze, virou laboratório cultural no início do século 20. Ali circulavam Donga, Pixinguinha e uma geração inteira que pariu o samba urbano. Em 1916, “Pelo Telefone” foi registrado como o primeiro samba gravado. Não nasceu em palácios. Nasceu em quintal preto.

Ou seja, pai é o samba. A mãe é o terreiro.

Agora me responde outra: você sabia que a primeira escola de samba surgiu em 1928?
A
Deixa Falar, no Estácio. Logo depois, no mesmo ano, nasce a Mangueira. Verde e rosa, favela organizada, comunidade ensinando organização coletiva muito antes de muito partido político aprender.

Em São Paulo, a pioneira foi a Lavapés, fundada em 1937 no Glicério. Samba paulista, mais marcado, mais pesado, com identidade própria.

Percebe uma coisa?
Nada disso nasceu em mansão. Nasceu em cortiço, em morro, em periferia.

E enquanto isso, o Estado fazia o quê? Perseguia.

No fim do século 19 e começo do 20, práticas de matriz africana eram enquadradas como crime de curandeirismo. Terreiro invadido. Atabaque apreendido. Objeto sagrado tratado como prova de delito.

E hoje tem gente dizendo que carnaval é coisa do demônio.

Eu te pergunto: demoníaco para quem?

O samba nasce dentro do candomblé. O surdo conversa com o rum. O repique conversa com o agogô. A bateria tem fundamento espiritual. Carnaval tem tudo a ver com macumba sim, com povo preto sim, com ancestralidade sim.

Só que o que antes era criminalizado, hoje movimenta bilhões. Em 2024, o carnaval do Rio de Janeiro girou cerca de 5 bilhões de reais na economia. Milhões de turistas. Em Salvador, mais de 800 mil visitantes. Em São Paulo, milhões nos blocos de rua espalhados pela cidade.

Olha a ironia: aquilo que chamaram de feitiço virou motor econômico.

E cada cidade faz do seu jeito.

No Rio é avenida, é Marquês de Sapucaí, é alegoria gigante, comissão de frente teatral, disputa de décimos. É espetáculo global.

Em São Paulo é bateria de quebrada, é comunidade que ensaia o ano inteiro depois do trampo. Zona Norte, Leste, Sul, Oeste, tudo pulsando.

Em Salvador é trio elétrico, é axé, é bloco afro como o Ilê Aiyê, fundado em 1974, levantando autoestima negra quando ainda era perigoso demais ser preto e orgulhoso.

Em Olinda é ladeira, frevo, maracatu, boneco gigante olhando o povo dançar.

Quatro formatos. Uma raiz.

Agora deixa eu te perguntar outra coisa: por que tem tanta gente incomodada com o carnaval?

Todo ano aparece crente fiscal da alegria dos outros dizendo que é pecado. Mas repara, se não gosta, fica na igreja. Ninguém invade culto com surdo na mão. Respeita a rua, respeita o bloco, respeita o terreiro.

E é curioso que até igreja hoje tem palco, LED, estrutura de show, área VIP. Camarote existe em todo lugar. O mercado aprende rápido quando vê onde está o poder simbólico.

Porque o buraco é mais fundo.

Carnaval é um dos poucos momentos em que pobre e rico pulam no mesmo chão. Claro, tentam separar com corda, abadá caro, camarote exclusivo. A elitização chega, tenta cercar. Mas o bloco de rua resiste. O ensaio aberto resiste. O samba de bairro resiste.

E na avenida a gente não desfila só fantasia.

A gente desfila recado.

Você acha que enredo é só poesia?
Não. É política.

Quando uma escola leva para a avenida tema sobre escravidão, quilombo, racismo estrutural, violência policial, intolerância religiosa, ela está dizendo para os políticos: estamos de olho.

Na avenida mostramos que pensamos. Que somos inteligentes. Que sabemos quem vota contra o terreiro e depois aparece com discurso bonito. Sabemos quem defende o povo preto de verdade. Sabemos quem tem defeito humano e quem tem projeto de morte.

Tem político que erra.
Tem político que quer nos apagar.

E a gente observa.

O desfile é também tribunal simbólico. É palco onde a favela fala em alta definição. Milhões assistindo. Não adianta vir com discurso barato achando que preto não entende orçamento, não entende lei, não entende poder.

Entende sim.

Entende porque organizou escola de samba antes de muito partido aprender a organizar base. Entende porque construiu economia informal gigante no carnaval muito antes de curso de empreendedorismo virar moda.

Carnaval não é alienação.
É consciência ritmada.

E apesar de tudo, apesar da elitização, apesar da perseguição religiosa, apesar da tentativa constante de higienizar cultura preta, o bloco de rua continua sendo esperança. É ali que o povo se encontra sem catraca. É ali que a criança vê sua comunidade brilhando. É ali que o ambulante ganha dinheiro. É ali que o tambor ensina que ninguém vence sozinho.

Carnaval é farol.

Farol do povo preto.
Farol da memória.
Farol da união.

E enquanto tiver gente na rua cantando samba, dançando axé, subindo ladeira em Olinda, ocupando avenida no Rio, fechando bairro em São Paulo, pode ter certeza: a história preta continua sendo escrita em ritmo de bateria.

E você sabe.
Não é só festa.

É afirmação.
É aviso.
É resistência vestida com purpurina.

Axé.