O GOL DO VINI JR. DURA ALGUNS SEGUNDOS. A FOTO DELE EXPLICA MAIS DE 500 ANOS DE HISTÓRIA.

Um gol dura segundos. Uma fotografia pode revelar mais de 500 anos de racismo e desigualdade racial da história do Brasil.

BLOGBRASILPRETO

FAVELADO PENSANTE

6/27/20264 min read

O GOL DO VINI JR. DURA ALGUNS SEGUNDOS. A FOTO DELE EXPLICA MAIS DE 500 ANOS DE RACISMO E DESIGUALDADE RACIAL DA HISTÓRIA.

Bora trocar uma ideia?

Estava assistindo ao jogo do Brasil e, como todo brasileiro apaixonado por futebol, vibrei com os gols do Vini Jr. O moleque jogou demais. Fez dois gols, chamou a responsabilidade e mostrou mais uma vez por que é um dos melhores jogadores do mundo.

Mas, para ser sincero, o que mais ficou na minha cabeça nem foram os gols.

Foi uma fotografia.

Depois de marcar um dos gols, o Vini correu em direção à torcida para comemorar. A câmera registrou aquele momento de costas para ele, mostrando a arquibancada inteira ao fundo.

Eu fiquei olhando aquela imagem por alguns minutos. E quanto mais eu olhava, menos eu enxergava futebol.

Eu enxergava o Brasil.

Talvez você olhe para essa mesma foto e não veja nada além de uma comemoração. Talvez ache que estou viajando ou querendo discutir racismo em tudo. Mas quem nasceu preto, cresceu na periferia e aprendeu a observar o mundo além da superfície acaba percebendo coisas que muita gente simplesmente não enxerga.

Aquela fotografia me fez pensar em uma pergunta simples.

Como pode um país que tem a maior população negra fora da África produzir um espetáculo protagonizado, em sua maioria, por jogadores negros, enquanto sua arquibancada só tem pessoas brancas e não representa essa mesma população?

Aquela imagem me lembrou uma desigualdade que existe muito antes daquela partida e muito além do futebol.

Porque o futebol nunca foi só futebol. Ele sempre foi um espelho da sociedade.

E, quando a gente olha com atenção, esse espelho mostra um país onde os corpos negros costumam estar no centro do espetáculo, enquanto o dinheiro, o poder e os espaços mais exclusivos continuam concentrados nas mãos de uma parcela muito menor da população.

É impossível olhar para aquela foto sem pensar nisso.

O Brasil é um país negro. Mas o poder econômico continua sendo branco.

Segundo o IBGE, cerca de 56% da população brasileira é formada por pessoas pretas e pardas (não acredito em pardismo). Somos maioria. Esse é um dado que desmonta uma das maiores mentiras que o Brasil contou para si mesmo durante décadas: a ideia de que somos uma minoria.

Não somos.

Somos maioria.

Mas basta mudar o ambiente que essa maioria parece desaparecer.

Olhe quem mora nos bairros mais ricos.

Olhe quem ocupa a maior parte dos cargos de presidência das grandes empresas.

Olhe quem controla os bancos.

Olhe quem administra os grandes fundos de investimento.

Olhe quem é dono das maiores redes de televisão.

Olhe quem aparece nos conselhos de administração.

Olhe quem está nos camarotes mais caros dos grandes eventos.

Olhe quem viaja para acompanhar uma Copa do Mundo durante semanas.

A pergunta deixa de ser "onde estão os pretos?" e passa a ser outra.

Por que a maioria do país continua sendo minoria quando o assunto é riqueza?


O Brasil foi um dos últimos países do mundo a abolir oficialmente a escravidão. Foram quase quatro séculos construindo riqueza através do trabalho escravizado de homens e mulheres negras.

Quando a escravidão “acabou”, em 1888, não houve distribuição de terras, não houve política séria de inclusão econômica, não houve reparação. Milhões de pessoas foram simplesmente jogadas à própria sorte.

Enquanto famílias negras começavam a vida sem patrimônio, sem educação formal e sem oportunidades, muitas famílias brancas já acumulavam terras, negócios, influência política e heranças.

Essa diferença atravessou gerações.

E ela continua aparecendo até hoje.

Não porque pessoas negras trabalhem menos.

Muito pelo contrário.

Segundo o próprio IBGE, pretos e pardos seguem sendo maioria entre os trabalhadores informais, recebem salários menores e ocupam proporcionalmente menos cargos de liderança, mesmo representando a maior parte da população.

Ou seja, o problema nunca foi falta de capacidade.

O problema sempre foi falta de acesso.

A Copa do Mundo virou um produto de luxo.

Quando a gente fala que a Copa já não é mais um evento popular, algumas pessoas acham exagero.

Mas vamos colocar as coisas na ponta do lápis.

Para assistir a uma Copa do Mundo fora do Brasil, não basta gostar de futebol.

É preciso ter dinheiro.

Muito dinheiro.

Passagem aérea internacional, Hospedagem, Alimentação, Transporte e Documentação.

Dias de folga no trabalho. E, claro, o ingresso.

Dependendo da fase da competição, um único ingresso pode custar milhares de dólares. Se a pessoa quiser acompanhar mais de um jogo, os custos aumentam rapidamente. Quando se soma passagem, hotel, alimentação e ingressos, uma viagem para acompanhar a Seleção pode custar centenas de milhares de reais.

Quem consegue pagar essa conta?

O trabalhador da periferia?

A mãe solo?

O entregador de aplicativo?

O operador de caixa?

O jovem que pega duas conduções para trabalhar?

Ou quem já possui renda alta, patrimônio e tempo disponível para transformar a Copa em turismo internacional?

Percebe como a discussão vai muito além da fotografia?

Ela fala sobre acesso.

E acesso, no Brasil, sempre esteve ligado à classe social.

E classe social, no Brasil, nunca deixou de conversar com raça.

Se alguém ainda acha que essa conversa é apenas sobre quem apareceu ou deixou de aparecer na arquibancada, talvez esteja olhando para o lugar errado.

A questão nunca foi contar quantas pessoas pretas ou brancas estavam naquele estádio.

A questão é entender por que aquela imagem fez tanto sentido para quem conhece a história do Brasil.

Ela parece familiar porque não mostra apenas uma torcida.

Ela mostra uma lógica que atravessa séculos.

Desde criança, nós aprendemos que o Brasil é o país do futebol. Crescemos ouvindo que o futebol une as pessoas, que dentro de campo todo mundo é igual, que a bola não escolhe cor, religião ou classe social.

E isso é verdade... até certo ponto.

Dentro das quatro linhas, o talento realmente fala alto.

Mas basta o juiz apitar o fim do jogo para a realidade voltar.

Quem administra o futebol?

Quem vende os direitos de transmissão?

Quem negocia os contratos bilionários?

Quem controla as plataformas de apostas?

Quem vende publicidade?

Quem compra camarotes?

Quem decide onde será a próxima Copa?

Quem lucra bilhões com tudo isso?

Quando a gente começa a responder essas perguntas, percebe que o futebol é muito menos democrático do que parece.

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