GUERRA: QUANDO OS DE CIMA MANDAM, OS DE BAIXO MORREM

Um texto contra todas as guerras e contra quem manda os pobres morrerem por interesses que nunca foram nossos. Um texto direto, com fatos históricos e frases de vozes negras, defendendo que a única luta necessária é contra a fome, a desigualdade, o racismo e a violência que atinge a periferia todos os dias.

PRETOHISTORIAPOLITICA

FAVELADO PENSANTE

1/13/20263 min read

Toda vez que alguém fala em guerra, usa palavras bonitas. Defesa. Honra. Pátria. Estratégia. Nunca usam as palavras certas: pobreza, cemitério, mãe chorando, criança sem pai, corpo favelado no chão.

Guerra nunca começa na favela, mas sempre termina nela.

Quem decide a guerra nunca vai pra linha de frente. Eles apertam botões, assinam papéis, discursam em palanques climatizados, cercados de segurança, café quente e tapete grosso. Do outro lado da história, quem vai pro front é o filho da doméstica, o mano que largou a escola cedo, o jovem da periferia que nunca teve escolha. O pobre vira soldado. O favelado vira estatística. O preto vira número.

Malcolm X já tinha avisado:
“Você não pode separar a paz da liberdade, porque ninguém pode estar em paz enquanto não for livre.”

E liberdade nenhuma nasce de bomba.

Guerra é o maior teatro do mundo. Um espetáculo caro, financiado por quem lucra com arma, petróleo, território e poder. Enquanto isso, o povo paga ingresso com o próprio sangue. Não existe guerra limpa. Não existe guerra justa pra quem mora longe do poder.

Bob Marley, que cantava com a alma do gueto jamaicano, foi direto ao ponto:
“Enquanto a filosofia que faz uma raça se considerar superior e outra inferior não for finalmente e permanentemente desacreditada e abandonada, haverá guerra.”

Ou seja, a guerra não nasce do nada. Ela nasce do racismo, da ganância, da concentração de riqueza, da ideia de que algumas vidas valem mais do que outras.

E adivinha quais vidas sempre valem menos?

As nossas.

Se guerra fosse justa, se guerra fosse necessária, a regra tinha que ser simples:
quer guerra? Então vai você.
Presidente contra presidente.
Rei contra rei.
General contra general.
Sem exército. Sem pobre. Sem favelado.

Resolve no soco, na mão, no olho no olho. Porque coragem de mandar os outros morrerem eles têm de sobra. Coragem de morrer, nunca.

Até George Orwell, que serviu ao colonialismo, viveu a brutalidade da guerra, escreveu algo que deveria ser ensinado desde cedo:
“A guerra é travada por pessoas que não se conhecem, para benefício de pessoas que se conhecem muito bem, mas não se matam.”

Quem lucra com a guerra conhece bem os nomes, os sobrenomes, os bancos e as empresas envolvidas. Quem morre na guerra vira apenas “baixa”.

Baixa de quê?
De humanidade.

A história é cheia de provas. Primeira Guerra Mundial, Segunda Guerra Mundial, Vietnã, Iraque, Afeganistão, conflitos na África, no Oriente Médio. Em todas elas, o roteiro é o mesmo. Jovens pobres enviados como carne de canhão. Famílias destruídas. Países saqueados. E depois, silêncio.

Silêncio pra quem sobreviveu com trauma.
Silêncio pras mães.
Silêncio pras periferias.

Martin Luther King Jr. também deixou o recado, e ele ecoa até hoje:
“A maior violência no mundo é a pobreza.”

E é contra essa violência que a gente devia estar em guerra.

A única guerra que faz sentido é outra.
É guerra contra a fome que faz criança dormir com dor na barriga.
É guerra contra a má educação que mantém o povo desinformado pra ser manipulado.
É guerra contra o racismo estrutural que empurra sempre os mesmos corpos pro abismo.
É guerra contra a concentração de renda, onde poucos têm demais e muitos não têm nada.
É guerra contra a violência cotidiana que normaliza bala perdida, cadeia cheia e cemitério lotado de preto.

Essa sim é uma revolução necessária.

Frantz Fanon, que pensou o colonialismo com a pele preta e a mente afiada, já mostrava que a violência do sistema é diária, silenciosa e constante. Não precisa de tanque na rua. Basta negar direitos, oportunidades e dignidade.

Quando alguém defende guerra, geralmente nunca passou fome. Nunca teve que escolher entre pagar aluguel ou comprar comida. Nunca pegou ônibus lotado às cinco da manhã. Nunca teve a vida atravessada pela polícia, pela ausência do Estado, pelo abandono.

A guerra deles é conceito.
A nossa é sobrevivência.

Por isso, ser contra a guerra não é ser fraco. É ser lúcido. É entender que o mundo não precisa de mais armas, precisa de mais justiça. Não precisa de mais soldados, precisa de mais professores. Não precisa de mais bombas, precisa de mais comida no prato.

Enquanto existir guerra, ela sempre vai ter o mesmo alvo.
Enquanto existir guerra, a favela sempre vai enterrar seus filhos.
Enquanto existir guerra, os de cima vão seguir vivos, ricos e protegidos.

E nós seguimos dizendo não.

Não em nosso nome.
Não com nossos corpos.
Não com o sangue da periferia.

A paz não é ausência de conflito armado. Paz é dignidade. Paz é direito. Paz é vida que vale a pena ser vivida.

Então, nenhuma guerra é nossa. A única luta que vale é contra quem lucra com elas.