O boy faz porque sabe: de Galdino ao Orelha, a impunidade sempre chega antes da polícia

O tempo passa, os casos mudam, mas o privilégio continua o mesmo. De Galdino ao Orelha, o Brasil mostra que quando o crime é cometido por boy branco, a impunidade chega antes da polícia. Esse texto é sobre memória, vivência e um sistema que protege alguns enquanto condena outros antes de qualquer julgamento. Leitura necessária. Texto provocado pelo leitor Felipe.

BLOGDIA A DIABRASIL

FAVELADO PENSANTE

1/30/20263 min read

O boy faz porque sabe: de Galdino ao Orelha, a impunidade sempre chega antes da polícia

Tem coisa que na favela a gente aprende cedo, sem ninguém precisar explicar. Aprende apanhando da realidade. Aprende olhando quem é levado pela polícia e quem é escoltado por advogado. Aprende entendendo que o problema nunca foi só o crime, sempre foi quem comete.

O tempo passa, parceiro. Passa mesmo. A gente envelhece, o asfalto muda, o prédio sobe, o aluguel aumenta. Mas tem uma coisa que não muda nunca nesse país: boy sempre cai pra cima.

Em 1997, em Brasília, cinco boys resolveram “brincar”. Brincar de quê? De tacar fogo em gente. O homem se chamava Galdino, indígena, estava na capital lutando por direito à terra, por respeito ao povo dele. Dormia num ponto de ônibus, cansado, como qualquer trabalhador que segura o mundo nas costas.

Os boys passaram, olharam e decidiram que aquilo ali não valia nada. Jogaram álcool, riscaram o fósforo e foram embora. Galdino virou chama. Virou dor. Virou morte.

E o Brasil fez o quê? Disse que foi excesso. Disse que foi juventude. Disse que eram “bons meninos”.

Agora pensa comigo: se fosse um indígena ou um favelado fazendo isso, a manchete seria “monstros”, “bandidos”, “caso bárbaro”. Teria foto, nome completo, CPF, endereço, histórico escolar e até apelido da infância.

Mas como eram boys, o discurso mudou.

O tempo passou. E olha que curioso: nenhum deles foi esquecido pelo Estado. Pelo contrário. O Estado estendeu a mão. Deu segunda chance. Terceira. Quarta. Um virou policial rodoviário federal, armado, fardado, com poder de parar qualquer carro na estrada. Outro seguiu a vida normalmente. E o advogado de um deles virou governador, repetindo no microfone que “bandido bom é bandido morto”.

Mas nunca é o bandido parecido com ele.

Corta pra 2026. Florianópolis. Praia Brava. Um cachorro comunitário chamado Orelha, conhecido por todo mundo, vivendo de carinho e cuidado coletivo. Quatro adolescentes, filhos de famílias ricas, resolvem se divertir. De novo, a palavra aparece: diversão.

Eles espancam o cachorro. Machucam tanto que não tem volta. Orelha morre.

A revolta vem, a internet ferve, Macumbeiro faz macumba pros boy, os crente oram por justiça, gente chora, gente protesta. Anunciam boicote aos hotéis da família dos boys. Hotéis grandes, caros, frequentados por quem nunca vai pisar numa favela sem vidro fechado.

E o Estado entra em cena. Mas não pra punir. Entra pra proteger. Proteger a vítima, Imagina, pra proteger os criminosos, exato, quando são boy e branco, são só meninos.
Protege identidade.
Protege imagem.
Protege futuro.

“São adolescentes”, dizem.
“Não pode expor”, explicam.
“Vamos ter cautela.”

Agora olha a diferença: na favela, adolescente é suspeito andando. Adolescente é enquadro. Adolescente é tapa na cara. Adolescente preto não tem direito à fase, tem direito à ficha criminal.

O boy tem tudo: família influente, advogado caro, mídia cuidadosa, justiça paciente.
E ainda tem o principal:
impunidade como colchão.

O favelado cresce sabendo que qualquer erro vira sentença. O boy cresce sabendo que erro vira aprendizado.

Quanto dinheiro você precisa ter pra não ir pra cadeia?
Qual sobrenome pesa mais que a lei?
Quantas gerações de pele clara são necessárias para o Estado olhar e dizer “vamos com calma”?

Porque pra nós nunca tem calma.
Nunca tem dúvida.
Nunca tem conversa.

A favela é sempre culpada antes de qualquer coisa acontecer. O boy faz acontecer e depois o sistema corre pra explicar, justificar, suavizar.

O caso Galdino e o caso Orelha não são histórias diferentes. São o mesmo Brasil falando alto, só que muita gente finge não ouvir.

É o Brasil dizendo que algumas vidas valem mais.
É o Brasil mostrando que justiça não é pra todos, é pra quem pode pagar, influenciar e se parecer com quem manda, com quem julga.

O tempo passa.
O boy continua protegido.
E a favela continua tendo que explicar o óbvio, como se fosse loucura nossa perceber isso.

Mas não é paranoia.
É vivência.
É memória.
É sobrevivência.

E enquanto não mexer nisso, enquanto o boy continuar tendo tudo e mais a impunidade ao lado, esse país vai seguir repetindo a mesma história, só mudando o nome da vítima e o bairro do crime.


Esse texto nasceu de uma provocação do leitor Felipe, que pediu que essa ferida fosse colocada na mesa. Fica o agradecimento pela escuta, pela cobrança e por não deixar o silêncio vencer a conversa.