QUATRO NEGROS EM QUASE DOIS SÉCULOS: O RACISMO POLÍTICO DO PARANÁ.

Do partido nazista aos quatro únicos deputados negros em dois séculos: um retrato do racismo que ainda controla a política do Paraná.

POLITICABRASILHISTORIA

FAVELADO PENSANTE

10/9/202615 min read

DO PARTIDO NAZISTA NO PARANÁ AO PRIMEIRO DEPUTADO FEDERAL PRETO

Quase um século separa a organização do nazismo e do integralismo no estado da eleição de Renato Freitas para a Câmara dos Deputados

Em outubro de 2026, o Paraná elegeu Renato Freitas como seu primeiro deputado federal homem preto. A vitória aconteceu quase dois séculos depois da criação da Câmara dos Deputados brasileira, 79 anos depois da eleição do primeiro deputado estadual preto do Paraná e 94 anos depois da fundação da Ação Integralista Brasileira, a maior organização fascista de massas da história do país.

É uma vitória para ser comemorada, mas também é uma estatística que deveria nos envergonhar.

Um estado com mais de 11 milhões de habitantes, 30 cadeiras na Câmara dos Deputados e 54 na Assembleia Legislativa precisou chegar a 2026 para eleger seu primeiro homem preto como deputado federal. Renato recebeu mais de 115 mil votos e ocupará uma instituição que, durante toda a história republicana, permaneceu praticamente inacessível aos homens pretos paranaenses.

Antes dele, em 2022, Carol Dartora havia se tornado a primeira mulher negra eleita deputada federal pelo Paraná. Na eleição de 2026, ela conquistou a reeleição. No mesmo pleito, Miss Preta tornou-se a primeira mulher negra eleita deputada estadual na história paranaense. Somados ao médico Justiniano Clímaco da Silva, primeiro deputado estadual preto, eleito em 1947, esses são os quatro grandes marcos pretos documentados da representação parlamentar paranaense.

Segundo o Censo de 2022, 4,24% dos paranaenses se declararam pretos e 30,06% se declararam pardos. Juntos, pretos e pardos representam aproximadamente 34,3% da população estadual. Ainda assim, a história das cadeiras parlamentares do Paraná foi escrita quase inteiramente por pessoas brancas.

Não é falta de população negra. Não é falta de capacidade. Não é falta de liderança. É resultado de uma construção histórica que associou poder, autoridade, competência e respeitabilidade à branquitude, enquanto reservou à população negra o trabalho subalternizado, a suspeita, a vigilância policial e o apagamento.

O Paraná preto que a propaganda oficial tentou esconder

Durante décadas, o Paraná vendeu a imagem de um estado essencialmente branco e europeu. A contribuição dos imigrantes europeus é real e deve ser reconhecida, mas transformá-la na história inteira do estado significa apagar indígenas, negros escravizados, trabalhadores livres, quilombolas, migrantes e famílias pretas que também construíram o território.

Curitiba chegou a ser divulgada como uma espécie de “capital europeia” do Brasil. Essa identidade não é apenas turística. Ela produz uma imaginação política: estabelece quem representa a cidade idealizada e quem aparece como corpo estranho.

É nesse cenário que a eleição de uma pessoa preta deixa de ser considerada natural e passa a ser tratada como acontecimento excepcional.

O racismo eleitoral raramente aparece somente na frase direta “não voto em negro”. Ele funciona por códigos. O homem branco contundente é chamado de firme; o homem preto contundente é chamado de agressivo. O branco que enfrenta adversários é corajoso; o preto é descontrolado. O branco de origem popular é autêntico; o preto periférico precisa provar permanentemente que é preparado. O cabelo, a roupa, a voz, o bairro, a linguagem e até a maneira de ocupar uma cadeira pública tornam-se elementos de julgamento.

O racismo também funciona antes da urna. Atua na seleção interna dos partidos, na distribuição do dinheiro eleitoral, na contratação das equipes, na exposição televisiva, no acesso aos grandes doadores, na composição das chapas e na decisão sobre quais candidaturas serão tratadas como realmente competitivas.

Em 2026, pessoas negras representaram somente 20,74% das candidaturas paranaenses a deputado federal e 27,1% das candidaturas a deputado estadual. No mesmo estado, a população negra representa aproximadamente 34,3% dos habitantes. Ou seja, a desigualdade já estava formada antes de qualquer eleitor apertar o botão da urna.

O racismo eleitoral não começa no voto. O voto é uma de suas últimas etapas.

Antes das cadeiras pretas, os camisas-pardas e camisas-verdes já estavam organizados

Para entender a profundidade desse apagamento, precisamos voltar aos anos 1920 e 1930. O Brasil realmente abrigou uma seção oficial do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, o NSDAP, partido comandado por Adolf Hitler.

A primeira organização local surgiu em Santa Catarina, em 1928. Posteriormente, a estrutura se espalhou por 17 estados brasileiros e passou a responder à Organização do Partido Nazista no Exterior, sediada em Berlim.

A pesquisa da historiadora Ana Maria Dietrich identificou aproximadamente 2.900 integrantes oficiais no Brasil, formando aquela que foi descrita como a maior base do Partido Nazista fora da Alemanha.

No Paraná, foram identificados 185 filiados oficiais. O estado não possuía o maior contingente brasileiro: aparecia atrás de São Paulo, com 785; Santa Catarina, com 528; Rio de Janeiro, com 447; e Rio Grande do Sul, com 439. Dos 185 filiados paranaenses, 94 estavam em Curitiba. Havia ainda organizações ou pontos de atuação em municípios como Ponta Grossa, Castro, Cruz Machado, Rio Negro, Londrina, Irati, Rolândia, Paranaguá e na região de União da Vitória.

Enquanto a seção alemã do Partido Nazista organizava estrangeiros ligados ao Terceiro Reich, o Brasil assistia ao nascimento de sua própria organização fascista de massas: a Ação Integralista Brasileira.

Plínio Salgado e a criação da AIB

A Ação Integralista Brasileira foi fundada em 1932 sob a liderança de Plínio Salgado. Inspirada especialmente pelo fascismo italiano e pelos movimentos autoritários europeus, adotava uniformes verdes, desfiles militarizados, culto ao chefe, saudação própria, disciplina hierárquica, nacionalismo radical, anticomunismo e desprezo pela democracia liberal.

Seus integrantes ficaram conhecidos como camisas-verdes. Utilizavam o sigma como símbolo e a saudação “Anauê” um “Heil Hitlher” abrasileirado.

A AIB era uma cópia brasileira do nazismo alemão. Existiam diferenças mas por aceitação do que por ideologia.

Mas essa diferença não absolve o integralismo.

A AIB foi um movimento fascista brasileiro, autoritário, antidemocrático, ultranacionalista e violentamente anticomunista. Dentro dela também existiram correntes abertamente antissemitas, especialmente a liderada por Gustavo Barroso. O movimento queria substituir a democracia representativa por um Estado corporativo, hierarquizado e comandado por uma liderança central.

No Paraná, o crescimento foi impressionante. A organização estadual foi estruturada em 1934 e chegou a reunir entre 35 mil e 40 mil filiados. Em termos proporcionais, o Paraná possuía uma das maiores organizações integralistas do país.

Na eleição estadual de 1934, a AIB apresentou 15 candidatos no Paraná e recebeu 7.841 votos, mas não conseguiu eleger deputado. No ano seguinte, entretanto, tornou-se a segunda força política nas principais cidades paranaenses.

Em 1935, a AIB elegeu pelo menos 24 vereadores em oito municípios. Foram três em Curitiba, quatro em Rio Negro, quatro em Ponta Grossa, seis em Imbituva, três na Lapa, dois em Jacarezinho, um em Paranaguá e um em São Mateus. Também conquistou a Prefeitura de Teixeira Soares, celebrada pelos integralistas como a primeira cidade brasileira a empossar um prefeito camisa-verde. Em Rebouças, outro integrante do movimento conseguiu assumir a prefeitura por decisão judicial.

o Partido Nazista alemão existiu e se organizou no Paraná, mudando de nome conquistou cargos públicos e principalmente virou o fascismo brasileiro representado pela AIB.

A transformação da AIB no PRP

Em 1937, Getúlio Vargas implantou o Estado Novo e extinguiu todos os partidos. A AIB também foi fechada. Depois de romper com Vargas, setores integralistas participaram da tentativa de golpe de 1938. A ação fracassou e Plínio Salgado seguiu para o exílio em Portugal.

Com o fim do Estado Novo e a redemocratização de 1945, os integralistas voltaram a se organizar. Como a antiga estética das camisas-verdes havia se tornado politicamente incômoda, o movimento adotou uma nova embalagem eleitoral: nasceu o Partido de Representação Popular, o PRP.

O PRP não era somente um partido conservador que, por coincidência, era a militância da AIB sob o controle de Plínio Salgado. Manteve uma estrutura centralizada, difundiu o anticomunismo, defendeu o corporativismo e continuou promovendo uma concepção hierárquica e excludente de democracia. Em 1957, voltou inclusive a utilizar o sigma integralista como símbolo.

No Paraná, o PRP obteve média de aproximadamente 6,5% dos votos nos pleitos entre 1945 e 1962, um dos melhores desempenhos estaduais da legenda no país. Conquistou sete cadeiras de deputado estadual ao longo de cinco eleições e duas cadeiras de deputado federal.

Os dois deputados federais eleitos pelo PRP paranaense foram justamente Plínio Salgado, em 1958, e Ivan Luz, em 1962. Ivan também havia exercido mandato como suplente entre 1960 e 1961.

Somando os resultados eleitorais das duas organizações, teve nove vitórias parlamentares: sete estaduais e duas federais.

Foram nove nazistas, fascistas eleitos.

Plínio Salgado, fundador do maior movimento fascista brasileiro, chegou à Câmara dos Deputados representando o Paraná. Décadas depois, o mesmo estado precisaria esperar até 2022 para eleger sua primeira mulher negra deputada federal e até 2026 para eleger seu primeiro homem preto para o mesmo cargo.

Plínio Salgado, fortaleceu o fechamento das portas para candidatos negros. Mas a ausência negra na política começou muito antes dele, com raízes na escravidão, no pós-abolição sem reparação, no poder das oligarquias e na exclusão econômica.

Mas o integralismo ajudou a fortalecer uma cultura política baseada em hierarquia, autoritarismo, nacionalismo excludente e combate aos movimentos populares. Ele organizou milhares de pessoas em torno de uma ideia de ordem na qual cada grupo deveria permanecer em seu lugar. E sabemos qual lugar foi historicamente reservado aos negros no Brasil.

Os quatro nomes que atravessaram o bloqueio

Justiniano Clímaco da Silva

Em 1947, Justiniano Clímaco da Silva tornou-se o primeiro deputado estadual preto do Paraná. Conhecido como “Doutor Preto”, nasceu na Bahia em 1908, formou-se em Medicina e chegou a Londrina em 1938.

Atendia especialmente a população pobre e percorria áreas rurais em um Ford 1928. Participou da fundação da Associação Médica e da Santa Casa de Londrina. Eleito pelo PSD com 1.816 votos, atuou pela construção de um hospital para tuberculosos que posteriormente se tornaria o Hospital Universitário da Universidade Estadual de Londrina.

Justiniano foi eleito apenas dois anos depois da criação do PRP e no mesmo pleito em que o partido integralista conquistou duas cadeiras estaduais no Paraná.

A democracia paranaense daquele momento conseguia abrir espaço para antigos integralistas em reorganização, mas fez de Justiniano uma exceção que demoraria quase um século para produzir continuidade.

Carol Dartora

Em 2020, Carol Dartora tornou-se a primeira mulher negra eleita vereadora de Curitiba. Em 2022, fez história novamente ao se tornar a primeira mulher negra eleita deputada federal pelo Paraná.

Professora, historiadora e militante sindical, Carol chegou ao Congresso carregando o peso de representar uma população numerosa que jamais havia visto uma mulher negra paranaense ocupar aquela cadeira.

A violência veio junto com a visibilidade.

Em 2024, Carol denunciou no plenário da Câmara que recebia mensagens racistas e ameaças de morte. Classificou os ataques como “terrorismo racial”: uma estratégia para mantê-la em medo permanente e afastá-la da vida pública. As ameaças motivaram a defesa de uma política nacional de proteção aos parlamentares vítimas de violência política de gênero e raça.

Para uma mulher negra, não basta vencer o racismo. É preciso enfrentar simultaneamente o machismo, a objetificação, a desconfiança e a tentativa constante de desumanização.

A mulher negra na política muitas vezes não descansa nem quando chega em casa. A violência atravessa a tela, invade o telefone, ameaça a família e tenta transformar até o sono em estado de alerta. A cadeira conquistada não vem acompanhada da segurança que deveria garantir o exercício do mandato.

Em 2026, Carol foi reeleita. Sua permanência também é uma vitória: entrar é difícil, permanecer viva, visível e politicamente ativa é uma batalha ainda maior.

Renato Freitas

Renato Freitas nasceu em Sorocaba e cresceu na Região Metropolitana de Curitiba. Filho de trabalhadora doméstica, viveu a pobreza, a violência e a presença do sistema prisional dentro da própria história familiar.

Trabalhou empacotando compras, conseguiu ingressar no curso de Direito da Universidade Federal do Paraná, tornou-se advogado, professor e mestre em Direito. Sua pesquisa e militância passaram pela criminologia, pela violência policial, pelo racismo, pela educação e pela luta por moradia.

Foi eleito vereador de Curitiba em 2020. Em 2022, perdeu o mandato após um protesto antirracista que terminou dentro da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de São Benedito, templo construído por pessoas negras escravizadas. A decisão foi posteriormente revertida pelo Supremo Tribunal Federal.

Renato tornou-se o primeiro vereador cassado em mais de 300 anos de história de Curitiba. Depois da reversão, elegeu-se deputado estadual, mas os processos disciplinares continuaram. Em 2025, uma reportagem internacional mostrou que ele enfrentava outras três iniciativas que poderiam novamente afastá-lo do mandato. Em 2026, o Conselho de Ética da Assembleia chegou a recomendar sua cassação em mais um processo.

É possível discordar de Renato. É possível questionar suas estratégias, suas falas e seu estilo. Um parlamentar não está acima de críticas. O problema aparece quando a régua utilizada contra o homem preto é diferente daquela aplicada aos parlamentares brancos. Quando comportamentos tolerados, relativizados ou esquecidos em outros políticos se tornam imperdoáveis no corpo negro. Quando a punição deixa de ser proporcional e começa a parecer uma procura permanente por qualquer oportunidade de expulsão.

Renato não se apresenta como o político negro domesticado que agradece silenciosamente por ter sido autorizado a entrar. Ele fala com o vocabulário da periferia, usa referências do rap, confronta a violência policial e recusa a estética tradicional do poder.

É justamente isso que torna sua presença tão incômoda para uma estrutura acostumada a aceitar pessoas negras apenas quando elas não mexem nos móveis da casa.

Sua eleição para deputado federal não apaga as controvérsias de sua trajetória. Mas demonstra que dezenas de milhares de paranaenses entenderam que sua voz precisava chegar ao Congresso.

Em 2027, Renato será o único homem preto da bancada federal paranaense. Se enfrentou tentativas sucessivas de cassação como vereador e deputado estadual, imagina a pressão política e racial em Brasília.

Por isso sua presença ultrapassa sua própria pessoa. Gostando ou não de sua personalidade ou de todos os seus posicionamentos, sua eleição abre uma porta que permaneceu fechada para homens pretos por mais de 200 anos da história parlamentar do estado.

Miss Preta

Em 2026, Miss Preta tornou-se a primeira mulher negra eleita deputada estadual no Paraná.

Filha de dona Erenilda, cortadora de cana, e de seu Evaldo, trabalhador rural, foi criada no Assentamento Zumbi dos Palmares, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Formou-se em Processos Gerenciais e como técnica em Segurança do Trabalho, tornou-se ativista, comunicadora e vereadora de Pinhais.

Em 2024, foi a mulher mais votada da história do município. Em 2025, tornou-se a primeira mulher negra a ocupar a vice-presidência estadual do PT paranaense e aqui a gente vê que até mesmo dentro da esquerda existe o racismo, seja estrutural ou direto. Um ano depois, rompeu uma barreira mantida durante 171 anos pela Assembleia Legislativa.

Sua vitória carrega duas lutas inseparáveis. Miss Preta chegou a um espaço construído historicamente para homens e, sobretudo, para homens brancos. Não enfrentou apenas o racismo que questiona a competência de pessoas negras. Enfrentou o machismo que exige das mulheres uma aparência, uma voz e um comportamento moldados para não ameaçar o poder masculino.

Ela não chega sozinha. Leva consigo a memória da trabalhadora rural, da cortadora de cana, das mulheres dos assentamentos, das empregadas domésticas, das mães solo, das passistas, das meninas negras que cresceram sem enxergar alguém parecido com elas na Assembleia.

Do nazismo histórico ao neonazismo contemporâneo

O Partido Nazista histórico foi proibido e deixou de funcionar legalmente no país. Mas ideias supremacistas não desapareceram com a derrota da Alemanha em 1945.

Levantamentos da antropóloga Adriana Dias identificaram a expansão de agrupamentos neonazistas no Brasil, especialmente em ambientes digitais. Em 2019, seu mapeamento apontava 334 células ou grupos em atividade. Desse total, 66 estavam no Paraná. Curitiba aparecia como a terceira cidade brasileira com maior concentração de grupos, atrás de São Paulo e Blumenau.

Há levantamentos posteriores com números nacionais e estaduais ainda maiores. Curitiba possui atualmente “mais de 50 células”. Em outubro de 2025, a Operação Nuremberg cumpriu 21 mandados contra um dos grupos neonazistas mais organizados e violentos em atividade no Brasil. As diligências atingiram quatro estados, incluindo Curitiba, Araucária e São José dos Pinhais. Foram encontrados materiais de apologia ao nazismo e armas brancas. O grupo era investigado por antissemitismo, discursos de ódio e planejamento de atos violentos.

Não estamos falando somente de um fantasma dos anos 1930. Estamos falando de redes contemporâneas que continuam transformando negros, judeus, nordestinos, indígenas, pessoas LGBTQIA+, pessoas com deficiência e adversários políticos em inimigos.

Racismo também é decidir quem pode representar o Paraná

Dizer que o racismo influenciou a ausência de pessoas pretas na política paranaense não significa afirmar que todos os eleitores brancos sejam racistas ou que toda derrota de uma candidatura.

Significa reconhecer um sistema.

Candidaturas pretas, em geral, partem com menor patrimônio, menos financiamento, redes econômicas mais frágeis e menor presença nos espaços tradicionais de poder. Muitas precisam lutar para convencer o próprio partido de que são competitivas. Depois precisam vencer a invisibilidade da imprensa, os estereótipos do eleitorado, a violência nas redes e as estruturas partidárias que historicamente priorizam políticos brancos.

Quando conseguem se eleger, enfrentam outra etapa: provar diariamente que pertencem ao lugar.

O Paraná abriu espaço político para uma organização oficial do Partido Nazista composta por 185 filiados. Permitiu que a AIB reunisse aproximadamente 40 mil integrantes, elegesse dezenas de vereadores e conquistasse prefeituras. Posteriormente, deu ao PRP integralista sete cadeiras estaduais e duas federais.

Ao mesmo tempo, levou 79 anos, entre 1947 e 2026, para passar de Justiniano Clímaco à primeira mulher negra eleita para a Assembleia. Levou até 2022 para eleger uma mulher negra deputada federal e até 2026 para eleger o primeiro homem preto para a Câmara dos Deputados.

Essa diferença não pode ser tratada como coincidência.

O autoritarismo encontrou organização, jornais, financiamento, símbolos, diretórios e candidatos. A população preta encontrou portas fechadas.

O Paraná de Sergio Moro também é o Paraná de Renato Freitas

Curitiba tornou-se nacionalmente conhecida pela Operação Lava Jato e pela atuação do então juiz Sergio Moro. O mesmo estado que projetou Sergio Moro nacionalmente demorou quase dois séculos para eleger um homem preto à Câmara dos Deputados. E o homem que finalmente rompeu essa barreira é justamente alguém que construiu sua carreira denunciando a seletividade penal, o encarceramento, a violência policial e o racismo institucional.

Quase um século separa o chefe dos camisas-verdes do homem preto de black power, filho da periferia, que ocupará a mesma Câmara.

Não é apenas uma cadeira

A eleição de Renato Freitas não resolve o racismo paranaense. A reeleição de Carol Dartora e a chegada de Miss Preta também não tornam automaticamente democrática uma estrutura que permaneceu branca durante quase toda sua história.

Representatividade sem políticas públicas pode virar fotografia. Mas políticas públicas sem representantes que conheçam o racismo na própria pele também podem ignorar urgências fundamentais.

A presença negra muda prioridades, perguntas e perspectivas. Coloca no centro temas tratados historicamente como periféricos: violência policial, encarceramento, moradia, educação, religiões de matriz africana, juventude negra, feminicídio, mortalidade materna, desigualdade salarial e acesso ao orçamento público.

Nenhuma pessoa negra é obrigada a representar toda a população negra. Carol, Renato, Justiniano e Miss Preta são indivíduos diferentes, de épocas, trajetórias e posições políticas diferentes. Não existe uma única forma correta de ser negro na política.

Mas a ausência quase completa de pessoas pretas nunca foi neutra.

Se uma sociedade possui milhões de habitantes negros, mas suas instituições permanecem quase inteiramente brancas, não estamos diante de uma coincidência demográfica. Estamos olhando para um processo de seleção do poder.

Durante décadas, o Paraná ensinou pessoas pretas a votarem em representantes que não se pareciam com elas. Ensinou que a experiência branca era universal e que a candidatura negra representava apenas um segmento. Ensinou que o político branco podia falar em nome de todos, enquanto o negro deveria falar somente de racismo.

Essa lógica precisa ser quebrada.

Renato Freitas não é importante porque seja perfeito. Nenhum parlamentar branco precisou ser perfeito para merecer o direito de ocupar uma cadeira. Ele é importante porque torna impossível continuar dizendo que um homem preto, periférico, de linguagem própria e sem sobrenome tradicional não pode representar o Paraná no Congresso Nacional.

Justiniano abriu uma fresta em 1947. Carol atravessou a porta federal em 2022. Renato e Miss Preta ampliaram essa passagem em 2026.

Agora, a responsabilidade não é transformar quatro exceções em monumentos solitários. É fazer com que deixem de ser exceções.

O Paraná que organizou nazistas, mobilizou dezenas de milhares de integralistas e elegeu o fundador do maior movimento fascista brasileiro não pode tratar a eleição de quatro pessoas pretas como se fosse suficiente.

Não é suficiente.

É apenas o começo.

Porque democracia não é somente permitir que pessoas negras votem. Democracia é garantir condições reais para que sejam candidatas, recebam recursos, sejam ouvidas, sejam eleitas, exerçam seus mandatos com segurança e não precisem sobreviver a uma tentativa de expulsão a cada vez que confrontarem o poder.

Em 2026, o Paraná não encerrou uma dívida. Apenas começou a reconhecê-la.

Depois de quase um século de portas guardadas pela branquitude, Renato Freitas chega ao Congresso. Carol Dartora permanece. Miss Preta entra na Assembleia. E Justiniano Clímaco finalmente deixa de aparecer como uma exceção perdida no passado para se tornar parte de uma história que continua.

Do Paraná que abrigou o Partido Nazista, fortaleceu o integralismo e elegeu Plínio Salgado ao Paraná que finalmente elegeu seu primeiro deputado federal homem preto existe uma travessia de silêncio, apagamento, resistência e luta.

A vitória de Renato não apaga essa história.

Ela a revela.


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